4 de jul de 2010

Sobre a carta de Juremir a Dunga

Não sei se Juremir Machado da Silva; jornalista, pesquisador e professor da PUC de Porto Alegre, estava sendo irônico quando escreveu o texto abaixo em sua coluna deste domingo no Correio do Povo.

(Em se tratando de Juremir Machado da Silva, é bem complicado sabê-lo.)

Mas as palavras que eles escreveu refletem com precisão o que penso a respeito da derrota da Seleção, e, nela, do papel de Dunga no comando desta.

Em tempo: como não tinha acesso à edição on-line do Correio (assino, mas esqueci a senha), peguei uma cópia do pra lá de bacana Blog Cruz de Savóia, que de lambuja trazia uma charge de Tacho, cartunista do Grupo Editorial Sinos, com que trabalhei por algum tempo e com quem também aprendi muito.

Leiam até o fim.

Vale cada palavra.


"Caro Dunga

Minha solidariedade, Dunga. Tu foste genial. Eu me tornei definitivamente teu fã. A eliminação contra a Holanda não abalará em coisa alguma a minha admiração. Tu és ingênuo, Dunga. Quiseste ganhar com base na seriedade, na lealdade e no caráter. Tiveste a coragem de dizer sempre a verdade e de enfrentar os mais poderosos. Cometeste erros, Dunga, mas isso é normal. Só os cretinos imaginam fazer tudo certo. Deixaste de fora alguns meninos talentosos, Dunga, e o velho Ronaldinho Gaúcho. Tiveste boas razões para isso. Tu havias ganhado tudo com o grupo que levaste a Copa. Desejavas valorizar os teus comandados e vencer ou perder com eles. És um capitão de navio à moda antiga. Aceitaste afundar com teu navio. Tua vitória teria sido uma revolução nos costumes. Que pena!

É verdade que não apostaste na beleza. Outros, no entanto, ganharam sem beleza alguma e tampouco sem tua valentia e tua nobreza rude. A derrota foi o resultado de alguns erros que podem acontecer com qualquer um: um gol contra de Felipe Melo, uma agressão boba de Felipe Melo, que determinou sua expulsão, e a perda do controle emocional pelo time todo. O mesmo Felipe Melo, entretanto, deu o lindo passe do gol do Robinho. Estiveste a um passo da glória, Dunga. Agora, voltaste, apesar dos triunfos anteriores, a ser um desgraçado, um maldito, um desprezado. Conheço isso, Dunga. Por mais que tu venças, serás sempre um perdedor. É tua sina. Os donos do mundo não suportam a tua franqueza, que chamam de arrogância. Detestam tua simplicidade, que rotulam de grossura. Odeiam tua transparência, que os impede de conceder privilégios e de fazer negociatas na tua cara.

Foste um exemplo, Dunga. O mundo, porém, não está preparado para a tua vitória. Espero que esteja para a de Maradona, técnico antagônico e complementar a ti, mas não acredito. Tomara que eu me engane. Foste bravo, Dunga, impávido, colosso. Não mandaste Felipe Melo pisar no adversário. Buscaste o equilíbrio. Apostaste no talento de Kaká e Robinho.

Sonhaste com a beleza. Ela não sorriu para ti. A mídia te condenou por não teres feito o jogo dela. Viste o jogo como um jogo e tudo fizeste para alcançar os teus objetivos. Não compreendeste que o jogo é também um teatro no qual alguns devem sempre figurar nos camarotes. Até o teu sotaque incomodou, Dunga, neste país onde os que debocham do teu sotaque têm sotaques tão ou mais caricaturais. Tiveste personalidade, Dunga. Isso é imperdoável. Há muita gente feliz agora. Teus inimigos podem sorrir triunfantes e sentenciar: “Eu não disse…”

Nós, os ruins, os ressentidos, os malditos, os perdedores, apesar de todas as nossas vitórias, estamos contigo Dunga. Somos os teus representantes por toda parte. Tinhas razão, Dunga: boa parte da mídia estava dividida, torcendo pelo Brasil e, ao mesmo tempo, te secando. Para vencer neste mundo, Dunga, é preciso aprender a ser hipócrita. Tu nunca conseguirás. Tuas vitórias serão sempre laboriosas. Tuas derrotas te marcarão mais. Tu, ao contrário de outros, não te escondes jamais. Aceita, caro Dunga, meus cumprimentos".

1 comentários:

Willian disse...

E mais uma vez o Juremir mata a pau ao falar de um homem que perdeu seis jogos em quatro anos e virou vilão.

O problema da maioria das pessoas é que elas não se conformam em ficar em segundo, terceiro ou quarto, por exemplo.

É como se quem representa o Brasil tivesse o dever de vencer sempre. E os outros devessem ser meros espectadores, submissos ao nosso "poder".

Não totalmente relacionado a esse tema, mas escrevi um texto a respeito disso no ano passado:

http://www.corridadeformula1.com/brasil-um-pais-onde-ser-vice-e-crime/