28 de fev de 2010

A Folha de S.Paulo e o suco de laranja

A Folha de S.Paulo está suando para se adequar aos novos tempos.


Vejamos o que diz uma das (são duas) manchetes deste domingo, 28 de fevereiro:

"Tremor de 8,8 graus atinge o Chile".

Extremamente relevante para quem, como você e eu, foi resgatado há pouco do meio do que restou da floresta Amazônica, e que estava, portanto, longe de tudo e de todos.

Sim, porque o RESTO do Brasil e do mundo sabia, desde ontem à noite, pelo menos, que o tal terremoto havia ocorrido; que a situação era séria etc. etc.

Como? Pela tevê, rádio, sites, blogs, twitter etc.

Se considerarmos que esse jornal publica, nessa mesma edição, manchete que concorre, na mesma forma e proporção, com a do terremoto, sou obrigado a perguntar aos que, como você e eu, não estavam perdidos na floresta, por que é que (ainda) assinam/compram um jornal cuja manchete, digamos assim, é velha e saturada?

Por outro lado, um pouco mais adiante, na página A8, editoria Brasil, a matéria de abertura informa:

"Novo projeto deixa Folha mais fácil de ler".

A linha de apoio esclarece:

"Mudanças gráficas estudadas há mais de seis meses estreiam em maio e devem tornar o jornal mais acessível e agradável".

A explicação:

"Diante do caos informativo, reforma será instrumento para alcançar um produto mais sintético na forma e mais analítico no conteúdo".

Concordo: o caminho, para os impressos, parece apontar na direção da análise e da interpretação, além dos elementos de ordem imagética, coisa que as revistas sabem desde há muito.

Mas também para as lições mais elementares do jornalismo.

Qual seja, que jornal serve para informar; e que informação, quando o assunto é jornalismo, requer algum esforço que não apenas a simples constatação do que é óbvio e que está, portanto, posto.

É mais ou menos como o sujeito aquele da crônica que passou a vida inteira tentanto descobrir qual a melhor forma de armazenar suco de laranja, até descobrir que era dentro da própria laranja.

24 de fev de 2010

O solista

Um dos indicativos que nós, jornalistas, estamos envelhecendo (acabo de inventar essa) é o apego, até há pouco impensável, aos adjetivos em determinadas circunstâncias.

É como se, de alguma forma, gradativamente as juntas de nossos dedos fossem cansando de reconstruir as frases e optasse por essas aparentes (usar adjetivos com propriedade é privilégio de poucos) muletas da língua.

O fato é que não consigo pensar no livro O solista (Nova Fronteira, 2009), de Steve Lopez, que acabo de ler, sem associar um "inquietante" às percepções que ainda borbulham em minha mente.


Trata-se, pra quem não sabe, e sem querer estragar o gosto da descoberta de ninguém, do relato da convivência entre Lopez, um conceituado (olha ele aí de novo...) colunista do Los Angeles Times com um mendigo chamado Nathaniel Ayres.

Na verdade, mais que um mendigo: um músico erudito que poderia ter tido uma carreira brilhante não fosse a esquizofrenia.

Enredo pra lá de parecido, diga-se, com o do O segredo de Joe Gould (Cia das Letras, 2003), de Joseph Mitchell.

(Gould, cês lembram, era um mendigo excêntrico que vivia no Greenwich Village, bairro boêmio de Nova York, conhecido por estar escrevendo um livro chamado "História oral do nosso tempo". Já Mitchell era repórter da The New Yorker quando escreveu sobre ele, mas essa é outra história.)

Bueno, o inquietante lá de cima fica por conta do fato de a história de Lopez ser diferente da de Mitchell não apenas pelo primor estilístico do primeiro e a eventual falta de habilidade do segundo: trata-se, antes, da narração de uma longa imersão do jornalismo em campos outros.

O que temos aqui é o rompimento de muitas das fronteiras que nós, jornalistas, muito raramente cruzamos, movidos por medos, preceitos e normas de conduta ancestrais.

Isso se verifica em O solista, por exemplo, quando, mais que contar uma história, o jornalista relata sua imersão na história; o que fez para ajudar alguém que, a seus olhos, precisava ser ajudado, valendo-se para isso inclusive das páginas de seu jornal.

Usualmente nós, jornalistas - e penso neste momento em gente como Günter Wallraff e seu Cabeça de Turco -, mesmo vivendo histórias, raramente somos protagonistas delas.

Mesmo quando nos colocamos no papel de personagens, é mais ou menos como na literatura, ou seja, no sentido de compor o cenário, raramente para interferir, por nossas ações, nesta ou naquela realidade.

É sobre isso que fala O solista, ainda que sob as vestes de uma história, digamos assim, tão inquietante quanto um adjetivo.

22 de fev de 2010

Sobre Leões e Cordeiros

Instigante esse Leões e Cordeiros, dirigido por Robert Redford e com Meryl Streep e Tom Cruise no elenco.

Fala de posicionamentos, mas também da ausência de.

No que diz respeito específico ao jornalismo, explora aspectos como o custo da proximidade e o que se faz da opinião quando o assunto é jornalismo político nos dias que se seguem.

O pano de fundo é a guerra no Afeganistão, vista da perspectiva de uma jornalista (Meryl Streep), de um político (Tom Cruise) e de um professor (Robert Redford).

Filme bom para ser trabalhado em aula; com certeza rende boas discussões.

A ficha (Adoro Cinema):

Título original:Lions for Lambs
Gênero:Drama
Duração: 1h31
Ano de lançamento: 2007
Site oficial: http://microsites2.foxinternational.com/br/leoesecordeiros/
Estúdio: United Artists/Cruise/Wagner Productions/Brat Na Pont Productions/Andell Entertainment/Wildwood Enterprises
Distribuidora: 20th Century Fox Film Corporation
Direção: Robert Redford
Roteiro: Matthew Michael Carnahan
Produção: Matthew Michael Carnahan, Tracy Falco, Andrew Hauptman e Robert Redford
Música: Mark Isham
Fotografia: Philippe Rousselot
Direção de arte: François Audouy
Figurino: Mary Zophres
Edição: Joe Hutshing
Efeitos especiais: Tweak Films/Industrial Light & Magic/NAC Co. Effects & Prop Animation/New Deal Studios

20 de fev de 2010

A arte de editar revistas

Se há coisa que me deixa muito p. da vida é saber que todos os dias, semana após semana, mês após mês, ano após ano, centenas de milhares de (boas) páginas de jornalismo deixam de ser escritas/registradas simplesmente porque nós, jornalistas, pesquisadores e professores simplesmente não estamos nem aí.

Com isso, e antecipando que conheço, antes por velho que por diabo, as dificuldades do mercado editorial brasileiro, um cabedal precioso de conhecimentos; fundamental à consolidação do campo do jornalismo, fica relegado à memória, sendo transmitido, quando muito, em relatos orais em embriagadas mesas de bar ou sonolentas salas de aula, com o perdão dos adjetivos e da sentença.

Lembra o sujeito aquele que foi linotipista do Correio do povo por 30 anos? Recorda as histórias que ele contava? Pois é, morreu. Com ele, morreram os relatos de um tempo que, sabemos, não volta mais, sobre o qual não derramamos uma gota sequer de suor.


Digo isso porque comemorei - MUITO - a chegada, esta semana, do livro A arte de editar revistas (Companhia Editora Nacional, 2009), de Fátima Ali, mais de 30 anos de experiência em jornalismo de revista, com títulos em seu currículo como diretora de Nova, Nova Escola, Estilo, MTV Brasil e vice-presidente do Grupo Abril.

Um lançamento na linha de Edição e Design, de Jan White.

Ou seja, repleto de um conhecimento burilado ao longo de décadas de jornalismo; que serve tanto para quem faz, pesquisa ou ensina jornalismo de revista, diagramação, design, edição etc.

O mais importante, no entanto, é que o livro, capítulo a capítulo, bate, sem maiores pudores, em uma tecla fundamental, mas nem sempre lembrada: não existe jornalismo sem consumo de jornalismo, com o perdão da redundância.

Consumo que se materializa, nesse caso, principalmente na relação leitor/veículo e suas complexificações.

Por esse viés, Ali frisa o tempo inteiro que devemos construir capas; títulos e formas focados nos leitores, e não apenas em nossos umbigos. O mesmo vale para os textos, fotografias, ilustrações e por aí afora.

E isso nem sempre é fácil, ou difícil; sobretudo, é possível.

Leiam o livro. Vale a pena.

19 de fev de 2010

E assim nos tornamos jornalistas

Passei boa parte das mais de duas décadas que trabalhei em redações afirmando, convicto, que vida de jornalista não é fácil.

Basicamente porque jornalista trabalha O TEMPO INTEIRO, esteja de plantão ou não; seja sábado, domingo, feriado ou dia útil, ainda que não saiba bem o que seja um dia "inútil".

Até que me tornei professor de jornalismo, em 2002, ainda durante o mestrado.

Foi quando me dei conta que professor também trabalha o TEMPO INTEIRO, seja sábado, domingo, feriado ou dia, digamos assim, útil.

Como aguentamos o tranco?

Porque temos, no geral, convicção de que o que fazemos é importante de alguma forma, mas também porque, aqui e ali, recebemos sérios indicativos de que vale a pena todo este sacrifício, estejamos em redações ou em salas de aula.

Um destes sinais, endereçado a mim e aos colegas Ângela Felippi, Fabiana Piccinin, Hélio Edges e Veridiana Mello, da Unisc, chegou por e-mail esta semana.

Quem assina é Marcia Muller, ex-aluna da Unisc e agora repórter da Rádio Agudo AM.

Tem a ver com a queda das pontes (foram duas) em Agudo (RS), no mês de janeiro, com as cinco mortes decorrentes da tragédia e com a cobertura jornalística do que houve.

Sobretudo, com a importância da formação quando o assunto é jornalismo.

(Esta foto foi encontrada à beira do Rio Jacuí, dias depois, na máquina do vice-prefeito Beto Boeck, uma das vítimas da tragédia)

O texto:

"Olá professores, amigos, eternos mestres...

Estou lhes escrevendo para dizer meu muito obrigado.

Às vezes, fico pensando nos vários colegas que adoram uma conversa em aula, que adoram matar aula, que não estão muito interessados no conteúdo. Sempre fui quieta e na minha, vocês bem sabem disso, e hoje eu agradeço por ter sido assim. Cada aula é muito importante para nossa carreira.

Vocês devem ter acompanhado a tragédia que aconteceu aqui na minha cidade, Agudo, no dia 5 de janeiro. Quando escolhemos a profissão jornalismo, todos sabemos que não vamos só cobrir boas notícias, as más e as tragédias também acontecem.

Mas eu nunca imaginei que tão rápido, depois de formada, menos de dois meses trabalhando como jornalista, eu iria fazer uma cobertura do tamanho que foi, envolvendo minha cidade e uma pessoa muito querida da minha família que se foi.

Professores, até hoje um dos assuntos diários da nossa emissora, a Rádio Agudo, continua sendo a tragédia da ponte na RSC-287. Nestes dias, seguidamente eu lembro de vocês, de cada um, por todas as aulas, lições.... Lembro das aulas e levo até o dia-a-dia. Muito obrigada, vocês nos ensinaram um jornalismo de qualidade e eu sou muito grata por isso.

No dia da tragédia, a grande emissora RBS, com suas mídias, sites e Rádio Gaúcha, divulgou duas mentiras: sete mortes e que o vice-prefeito havia sido achado com vida.

Professores, jornalistas do maior veículo de comunicação do nosso estado divulgaram duas mentiras!

Isso doeu, em nós, agudenses, profundamente.

A tragédia da ponte acabou sendo mais uma aula de jornalismo para mim. Uma aula muito prática.

Como falei anteriormente, aconteceu na minha cidade, envolvendo pessoas conhecidas e uma ligada diretamente com minha família, amigo intimo da família, que foi o vice-prefeito. Foram 11 dias de intenso trabalho, até encontrar os cincos corpos.

Eu e meus colegas dávamos boletins diários para rádios de todo o estado e Brasil. Nunca me imaginei fazendo isso. Com certeza foi uma grande experiência, apesar da tragédia, que levarei para sempre.

Ângela, por vezes até fiz o papel de assessora de imprensa da família do vice-prefeito, assim que os jornalistas souberam da forte ligação que eu tenho com a família.

Nós, da Rádio Agudo, ajudamos a TV Record, por exemplo, e o jornal Zero Hora, a produzir reportagens.

Vocês já devem ter feito a cobertura de uma grande tragédia, é muito difícil ainda mais quando envolve grandes amigos.

Vou deixar o endereço do meu blog, ali postei sobre os dias da tragédia e da atual situação. http://jornalistamarciamuller.blogspot.com

Fico por aqui mais uma vez agradecendo a cada aula e a cada um de vocês.

Um grande abraço."

18 de fev de 2010

Pesquisa em Ensino de Jornalismo

Encerra-se no dia 1º de março, uma segunda, o prazo para envio de trabalhos ao IX Ciclo Nacional de Pesquisa em Ensino de Jornalismo.

O evento se realiza durante o 13º Encontro Nacional de Professores de Jornalismo, no período de 21 a 23 de abril, em Recife (PE), na Universidade Católica de Pernambuco.

O tema central será “Ensino de Jornalismo: Novas Diretrizes e Novos Cenários Jurídicos, Profissionais, Tecnológicos e Econômicos”.

A promoção é do FNPJ (Fórum Nacional de Professores de Jornalismo).

17 de fev de 2010

Intrigas de Estado

Eis mais um filme bem bacana para se trabalhar em sala de aula, que esteve em cartaz nos cinemas em 2009.

Tem a ver com jornalismo investigativo, principalmente, mas também com o atual momento evolutivo da profissão, em que formas antigas e novas coexistem em um mesmo plano, de forma nem sempre pacífica, para azar das duas.

Na trama de Intrigas de Estado (State of play, 2009), Russel Crowe (foto) é o jornalista Cal McAffrey, repórter veterano do “Washignton Globe.

Tudo se inicia com um assassinato qualquer, que ele obviamente não deixa passar em branco e que representa, na verdade, a ponta de um iceberg.

Uma montanha que só ele, jornalista sagaz, apesar de feio, sujo e cabeludo, consegue enxergar, mesmo cercado pela leviandade dos colunistas-blogueiros e pelos investimentos de seu jornal, cada vez maiores na forma em detrimento do conteúdo.

Trata-se, o filme, da adaptação de uma minissérie produzida pela BBC em 2003. Nela, que teve no elenco Bill Nighy, James McCavoy e John Simm, um grupo de jornalistas trabalha ao lado de detetive da polícia para investigar o assassinato da amante de um congressista.

Mais que isso, só vendo o filme.

Ficha técnica (e-pipoca)
Gênero: Crime, Drama, Suspense
Duração: 127 min.
Tipo: Longa-metragem / Colorido
Distribuidora(s): Paramount Pictures do Brasil
Produtora(s): Andell Entertainment, Bevan-Fellner, Relativity Media, Studio Canal, Universal Pictures, Working Title Films
Diretor(es): Kevin Macdonald
Roteiristas: Matthew Michael Carnahan, Tony Gilroy, Billy Ray, Paul Abbott
Elenco: Russell Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams, Helen Mirren, Robin Wright Penn, Jason Bateman, Jeff Daniels, Michael Berresse, Harry J. Lennix, Josh Mostel, Michael Weston, Barry Shabaka Henley, Viola Davis, David Harbour, Sarah Lord

Sotaques d'aquém e d'além mar

Para quem se interessa por categorias e gêneros jornalísticos, a leitura de Sotaques D'aquém e D'além Mar: travessias para uma nova teoria de gêneros jornalísticos é necessária.

Não tanto pelo que acresce à discussão a partir do que já havia proposto por José Marques de Melo e seu A opinião no jornalismo brasileiro (Vozes, 1985), mas pelo que problematiza.

Chaparro sugere que o paradigma opinião/informação não é suficiente para explicar a narrativa jornalística

Prefere, antes, as categorias discursivas relato e argumentação, a partir do pressuposto que a opinião e a informação são antes complementares que excludentes quando o assunto é jornalismo.

Apesar dos exageros - tipo: chamar de "fraude teórica" a classificação anglo-saxã arcada no binômio opinião x informação, desconsiderando, assim, sua importância conceitual - é um livro importante.

Principalmente porque realiza uma análise comparada entre o jornalismo brasileiro e o português a partir de uma ampla pesquisa envolvendo alguns dos principais jornais dos dois países.

Há ciência, portanto, apesar dos exageros.

12 de fev de 2010

O jornalismo, a mateiga e a resposta

Quem ganhou a promoção foi Mirna Tonus, jornalista, mestre em Educação e doutora em Multimeios. Mirna é professora e pesquisadora na UFU; no twitter, @mtonus; no blog, Interações Digitais.

A questão colocada:

- Qual a relação entre a manteiga (aquela que vai bem com pão) e a emergência do jornalismo dito informativo no Brasil?

A resposta de Mirna: "Conta a história do jornalismo que a relação está no preço. O Diário do Rio de Janeiro, surgido em 1821, era chamado, devido a seu preço, de Diário do Vintém ou Diário da Manteiga, por publicar o preço do produto".

Sim, é isso.

O preço da manteiga, e os anúncios sobre escravos, leilões, achados, aluguéis etc, inseriam-se dentro de uma lógica editorial que se preocupava principalmente com a informação, o serviço, em detrimento da opinião, à época hegemômica por estes lados. Daí o apelido.

Parabéns, Mirna! Aguardo seu endereço para encaminhar o livro.

O jornalismo e a manteiga

Quer ganhar um exemplar no livro Metamorfoses Jornalísticas 2: a reconfiguração da forma (Edunisc, 2009), organizado por mim e por Fernando Firmino da Silva?


Então responda à seguinte pergunta:

- Qual a relação entre a manteiga (aquela que vai bem com pão) e a emergência do jornalismo dito informativo no Brasil?

O primeiro que responder corretamente receberá o livro em casa, sem custo algum.

Ao vivo de Bagdá

Aos que, como eu, têm nos filmes um importante suporte didático às aulas de jornalismo, algumas palavras a respeito de Ao vivo de Bagdá, de Mick Jackson e com Michael Keaton e Helena Carter no elenco.

Sobre a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, na década de 90, e a cobertura realizada pela CNN àpoca.


Ilustra bem, por exemplo, alguns aspectos (na verdade, dificuldades) do trabalho jornalístico, em especial a relação entre repórter/fonte; repórter/repórter e repórter/instituição jornalística.

No caso repórter/fonte, as implicações éticas e morais da aproximação, que, não raro, coloca em risco a vida/integridade de quem é entrevistado, mas também manipula o primeiro.

A aproximação repórter/repórter é interessante, por outro lado, à medida que ambienta as tensões inerentes a um cenário de cobertura múltipla, com as inevitáveis disputas pelo furo e os conflitos interpessoais, passionais ou não, entre colegas da mesma equipe/emissora.

Nesse sentido, vale destacar, no filme, a presença institucional das emissoras, ou seja, a relação entre jornalista e a empresa para quem trabalham: pressões, frustrações, erros etc.

Isso para ficarmos em alguns dentre tantos aspectos interessantes de se trabalhar em aula a partir do Ao vivo em Bagdá: vale para as disciplinas de técnicas de reportagem, tevê, jornalismo internacional, ética etc.

O filme falha, no entanto, à medida que empresta à CNN uma dimensão, digamos, épica, e esquece, por exemplo, que não foi deles o furo do bombardeio à Bagdá de Saddam Hussein, mas sim de Carlos Fino, à época repórter da RTP, de Portugal.

Saiba um pouco mais sobre isso nesta entrevista que Fino concedeu a Silvia Moretzohn, veiculada no Observatório de Imprensa e cujo conteúdo pode ser conferido no livro A guerra ao vivo (Verbo, 2003).

De qualquer sorte, a quem não o fez, recomendo que assista o filme.

A ficha técnica (Adorocinema):

Título original:Live From Baghdad
Gênero:Drama
Duração: 1h49min
Ano de lançamento:2002
Estúdio:HBO Films / Industry Entertainment
Direção: Mick Jackson
Roteiro:Robert Wiener, Richard Chapman, John Patrick Shanley e Timothy J. Sexton, baseado em livro de Robert Wiener
Produção:George W. Perkins
Música:Steve Jablonsky
Fotografia:Ivan Strasburg
Direção de arte:Ahmed Abounouom e Matthew C. Jacobs
Figurino:Louise Frogley
Edição:Joe Hutshing
Efeitos especiais:Radium Inc./Spectrum Effects Inc.

IVC registra queda de 3,5% em 101 jornais

Mais índices sobre a queda dos jornais, desta vez do IVC.

Um trecho da matéria veiculada no Comunique-se:

"A crise econômica de 2009 também atingiu o mercado brasileiro de jornais. De acordo com dados divulgados pelo Instituto Verificador de Circulação (IVC) nesta quinta-feira (11/02), a queda foi de 3,5% no último ano, em relação a 2008. Em 2009, circularam em média 4.200.743 exemplares de jornais por dia, enquanto no ano de 2008 o volume era de 4.351.400. O instituto analisou os números de 101 títulos filiados à entidade".

Veja por aqui a íntegra do texto assinado por Izabela Vasconcelos.

11 de fev de 2010

Solidariedade retroativa

Estou com um problema relativamente complicado.

Na verdade, dois.


Há alguns meses, ainda no inverno, dois pinhões do pacote que comprei no supermercado tiveram um destino menos cruel que meu êstomago: foram enterrados em um vaso da sala aqui de casa.

Tempo vai, tempo vem, e eis que, lá pelas tantas, dois brotos emergem da terra e se transformam, lenta, porém gradualmente, em pés de pinheiro.

Araucárias angustifolia, para sermos mais específicos.

Até aí tudo bem: comprovou-se o que Lèvy disso há séculos, ou seja, que uma semente é uma árvore do ponto de vista virtual.

Em o sendo, tem tudo para tornar-se uma árvore, a menos que haja alguns problema no transcurso (ser comida, por exemplo).

Mas a questão é: o que faço agora com as duas (lindas) criaturas que estão lá na sala?

Devo doar para algum amigo que tenha pátio em casa? Para a escola de meu filho? Seria didático.

Ou, pura e simplesmente, deixá-los crescer à revelia?

Nas primeiras duas hipóteses, sentirei saudades.

Na terceira, seria cruel com os sobreviventes: moro em apartamento, e apartamentos, sabemos, não combinam com pinheiros.

Gozado isso: há muitos anos, uma crônica que li falava de uma semente de manga enfiada ao acaso em um vaso de uma sacada qualquer do Rio de Janeiro.

Não lembro o que aconteceu daquela feita, mas acabo de descobrir que a solidariedade pode ser retroativa.

5 de fev de 2010

No tempo dos gigantes

Para quem, como eu, (ainda) gosta do Led Zeppelin, sugiro a leitura de Led Zeppelin - Quando os gigantes caminhavam sobre a terra, de Mick Wall.

Em especial porque a biografia é escrita por um especialista em jornalismo cultural e ex-editor da Classic Rock (com entradas na mítica Mojo, Music Week, The Mail on Sunday e por aí em diante), que acompanhou de perto não apenas o nascimento do Led como a ascensão e ocaso da banda.

Por ter tanta empatia com aquela banda que, em minha opinião, ainda não foi superada em seu estilo, Wall traça um perfil bastante minucioso - e cru - de como tudo se deu.

O que nos permite descobrir, por exemplo, que o Led não foi apenas o "feliz fruto de um encontro casual entre músicos talentosos de estúdio", como reza a lenda, mas sim um projeto artístico-comercial capitaneado por Jimmy Page e repleto de acusações de plágio por todos os lados.

Isso para ficarmos em dois exemplos.

Penso que Walls erra, no entanto, quando, após cada capítulo, faz remissões de cunho subjetivo, como se conversasse mentalmente com os protagonistas do texto.

Com isso, ficamos em dúvida, aqui e ali, se estamos no campo da realidade ou da ficção, o que, garante, não ocorre em momento algum, apesar do estilo.

Soa estranho; não sei se funciona bem.

Mais que isso, só lendo o livro.

Abaixo, Black Dog. Para você.

Nova edição da Revista Folkcom

Repasso, na íntegra, e-mail recebido há pouco de Sérgio Luiz Gadini, via mailling do FNPJ:

"Ao registrar o sétimo ano de existência, a Revista Internacional de Folkcomunicação disponibiliza aos pesquisadores, estudantes e interessados na conexão temática mídia/folclore/cultura popular novos textos, ensaios e análises de produtos que envolvem o universo folkcomunicacional. E, para manter a tradição, tal produção intelectual e acesso mantêm o caratér aberto e dialógico da Rede Folkcom, entidade responsável pela Revista.

"Nesta edição (Nº 14), a seção Ensaios & Artigos registra a colaboração de textos de Denis Porto Renó (“O seriado El Chavo del Ocho como um produto folkcomunicacional que reflete a sociedade mexicana descrita por Octavio Paz”), Emma Torres Romay (“La utilización del folclore como estrategia publicitaria na Galícia”), Giordanna Santos (“O siriri na Contemporaneidade: reflexões sobre a espetacularização da dança no 'Festival de Cururu e Siriri de Cuiabá'”), Iury Parente Aragão e Jacqueline Lima Dourado (“Os líderes de opinião e a comunidade comunicante em uma romaria religiosa”), Lucy Regina Costa, Osvaldo Trigueiro e Ed Porto Bezerra (“Folkcomunicação e Cibercultura: os Agentes Populares na Era Digital”), Viviam Lacerda de Souza e Marília Gomes Ghizzi Godoy (“O alto-falante como comunicação e tradição cultural em Senhora de Oliveira/MG”).

"A seção Entrevista traz um diálogo com o pesquisador Osvaldo Meira Trigueiro, que fala dos desafios da pesquisa em Folkcomunicação, comparando diferentes momentos da história, desde que Luiz Beltrão lançou a referida proposta de estudo.

"Na Discografia, o jornalista Ricardo Ampudia apresenta o “resgate da cultura cigana através do punk rock de Gogol Bordelo”, enquanto o repórter Diego Antonelli escreve sobre o vídeo-cordel de Ricardo Mello e Samuca, discutindo a relação entre “cordel e cultura popular” num criativo projeto de animação viodeográfica. O Ensaio Fotográfico da edição é da autoria de Leandro Tapajós Filho e apresenta imagens das variadas cores e formas do boi-bumbá Amazônico. Por fim, a resenha literária é da autoria do jornalista Felipe Simão Pontes sobre uma produção bibliográfica paraibana (“entre o acontecimento midiático e a ação folkcomunicacional”).

"Para fechar, fica o registro, na forma de convite, para que todos autores interessados em discutir e pesquisar sobre temas que envolvem a Folkcomunicação, para participar da Revista Folkcom, tendo por base as orientações editoriais, disponíveis no site do periódico. O objetivo maior, afinal, é fortalecer este emergente campo de estudos interdisciplinares. Com o desejo de uma boa leitura, e crítica, sinta-se, pois, motivado/a a integrar este Democrático Projeto Editorial... A Revista Internacional de Folkcomunicação!

Campos Gerais do Paraná, Brasil, Verão de 2009."

Para submeter textos (ensaios, artigos, resenhas, críticas, dentre outros formatos aceitos pela publicação) para as próximas edições, os autores devem se cadastrar no Portal, a partir do link da Revista Folkcom, e encaminhar o material diretamente ao pelo site.

Dúvidas e informações podem ser enviadas ao e-mail revistafolkcom@uepg.br.

4 de fev de 2010

Um filme realmente muito chato

Se eu tivesse de encontrar um adjetivo para classificar o filme Sherlock Holmes, de Guy Ritchie, muito provavelmente seria "chato".

O filme é chato por pelo menos cinco motivos, a saber:

1 Ele é chato, em primeiro lugar, porque exagera demais nas cenas de ação, ao ponto de, aqui e ali, elas, as tais cenas, esconderem roteiro, cenário, trilha, figurino e o que mais houver.

Na boa: Sherlock, pra quem não lembra, ou não soube, é um papo mais cabeça, mais mistério; não tem nada a ver com ação.

2 O filme também é chato porque lembra, em muito, aqueles piadistas chatos, que não têm vocação alguma para piada e precisam repetir o texto para - haja o que houver - explicar à pobre da vítima a graça da piada.

Refiro-me às remissões, inicialmente interessantes, onde Sherlock explica, depois de ter descoberto, como chegou às conclusões.

Então, a cada nova descoberta, uma nova explicação; até o final do filme.

3 Outra coisa chata no filme: a obviedade. Trata-se de um enredo óbvio e chato. Clichê dos pés à cabeça. Recriar é uma coisa. Implodir, outra.

4 E o que dizer da caricaturização dos personagens? Exageradamente chatas.

5 Por fim, mas este é coisa pessoal minha, os caras acabaram com o personagem de Sir Arthur Conan Doyle sem oferecer quase nada em troca, o que é realmente uma pena pra quem, como eu, teve nesta uma de suas primeiras leituras.

E não adianta: não vou comentar nada sobre o fato de o cachimbo de SH, antes fundamental à trama, aparecer com algo importante somente na metade para o final do filme.

E ser de cano reto, uma heresia.

3 de fev de 2010

Jornalismo é assunto sério, moçada!

A capa abaixo está bombando no twitter. Não sei bem o que dizer.

Bucci fala aos jovens jornalistas

Aos que, como eu, acreditam que a consolidação do campo de jornalismo passa necessáriamente pela formação em jornalismo, de alunos e professores, recomendo a leitura do discurso que Eugênio Bucci realizou em janeiro na cerimônia de formatura de alunos da Uniara, em Araraquara (SP), da qual foi patrono.

Tomei conhecimento dele por meio do twitter do Observatório de Imprensa.

Fala, sobretudo, de comprometimento; do que o jornalismo significa para a sociedade e da responsabilidade que nós, professores, temos para com a formação destes profissionais.

Um trecho, específico sobre o diploma:

"(...) Volto então a falar, apenas de passagem, das aflições que eu sei que estão por aí a espreitá-los. Entre todas, a mais comentada talvez seja mesmo a decisão judicial que teve enorme repercussão nos nossos cursos: o fim do diploma obrigatório para o exercício da profissão de jornalista.

"Não se deixem abater por isso. O diploma específico em jornalismo não é exigido para profissionais de imprensa em democracias de maior tradição que a nossa – de onde vêm, aliás, alguns dos principais ensinamentos do ofício que exercemos.

"Não é porque o diploma é obrigatório que a profissão se torna melhor ou pior. São várias as profissões no Brasil que não requerem diplomas específicos. Isso não é um problema em si – e não deve, por um minuto sequer, fazê-los acreditar que o futuro será pior.

"O que conta é que vocês se diplomaram, tiveram aulas com grandes professores, e que isso os habilita de forma diferenciada a exercer essa função pública que é a de informar o cidadão e fiscalizar o poder. Há uma imensa estrada aberta para vocês. Não duvidem disso. (...)"

É um pouco do que temos dito/discutido dentro e fora das salas de aula; um pouco do tudo em que acreditamos.

O texto pode ser lido na íntegra por aqui.

2 de fev de 2010

Circulação de jornais cai 6,9%

Transcrevo, por relevante, e-mail recebido de Márcio Ferreira, via mailling do Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo.

Diz respeito a matéria veiculada na revista Meio & Mensagem sobre a queda na circulação dos jornais.

A matéria original é de Alexandre Zaghi Lemos.

O texto:

"Caiu 6,9% a circulação somada dos 20 maiores jornais diários brasileiros em 2009. Onze títulos viram seus números encolherem durante 2009. Os dois que mais caíram foram os do Grupo O Dia, do Rio de Janeiro: O Dia (-31,7%) e Meia Hora (-19,8%). Também tiveram quedas Diário de S. Paulo (-18,6%), Jornal da Tarde (-17,6%), Extra (-13,7%), O Estado de S. Paulo (-13,5%), Diário Gaúcho (-12%), O Globo (-8,6%), Folha de S. Paulo (-5%), Super Notícia (-4,5) e Estado de Minas (-2%).

A liderança continua com a Folha de S. Paulo (média diária incluindo domingo, de 295 mil exemplares), seguida por Super Notícia (289 mil), O Globo (257 mil) e Extra (248 mil). Em quinto lugar está O Estado de S. Paulo (213 mil), à frente do Meia Hora (186 mil) e dos gaúchos Zero Hora (183 mil), Correio do Povo (155 mil) e Diário Gaúcho (147 mil). O top 10 se completa com o Lance (125 mil).

Apenas seis conseguiram melhorar seus desempenhos de acordo com dados do Instituto Verificador de Circulação (IVC). São eles: Daqui (31%), Expresso da Informação (15,7%), Lance (10%), Correio Braziliense (6,7%), Agora São Paulo (4,8%) e Zero Hora (2%). Mantiveram-se estáveis: Correio do Povo, A Tribuna e Valor Econômico, que encerraram o ano passado com circulações bem próximas às do fechamento de 2008."

A matéria pode ser conferida na íntegra por aqui.

1 de fev de 2010

Elogiemos os homens ilustres

A dica de leitura deste tórrido princípio de fevereiro fica por conta do Elogiemos os homens ilustres (Cia das Letras, 2009), de James Agee e Walker Evans.

Resultado de uma cobertura feita para a Revista Fortune.

A leitura vale pela história (e pelas histórias dentro da história), claro, mas, principalmente, pela(s) forma(s) com que ela é contada do ponto de vista jornalístico pelo jornalista e escritor James Agee e pelo fotógrafo Walker Evans.

Bom, o contexto é o Sul dos Estados Unidos de 1936; onde eles estiveram por quatro semanas, no auge da Grande Depressão que assolou o país por aqueles dias.

Então é um cenário quente, pobre, empoeirado e decadente.

A forma, no entanto, inova quando o assunto é jornalismo em livro, à revelia do nome que lhe demos (diversional, literário, livro-reportagem etc.).

Na verdade, as formas.

Comecemos pelas 61 fotos de Evans: são cruas, quase ríspidas.

Lembram em muito as de Sebastião Salgado; só posso pensá-las em PB.

Um exemplo:

Já o texto fala da alma de gente; da vida de três famílias de agricultores pobres do Alabama que já haviam perdido quase tudo, inclusive a identidade.

É como se o narrador não estivesse nem aí para descrever o que estava vendo, importando-se principalmente com o que era sentido por aquela gente naquele momento; suas angústia e frustrações, o que implica, claro, em uma aproximação muito grande entre o que narra e o que é narrado.

Leia um trecho do livro.

Tire suas próprias conclusões.

Inscrições ao pós em Edição vão até 14/03

Se você é jornalista graduado, com ou sem experiência de mercado, e quer se especializar na prática de edição em jornalismo, tem até o dia 14 de março para se inscrever no curso de pós-graduação Edição em Jornalismo da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc).


O curso, cujas aulas se iniciam dia 9 de abril e têm duração de três semestres, em um total de 360 horas/aula, oferece a compreensão teórico-conceitual do que representa a edição em jornalismo; em especial no que a função tem de viabilizadora do processo jornalístico como um todo.

As disciplinas do Pós-graduação Edição em Jornalismo estão divididas em seis módulos, com aulas ministradas por profissionais de reconhecida competência acadêmica e profissional.

Os conteúdos englobam o jornalismo impresso (jornais, revistas e design de capas, principalmente), digital (webjornais, blogs, microblogs, infográficos), assessoria de imprensa; jornalismo popular; rádio; imagens (telejornalismo, fotojornalismo, documentários e especiais para a televisão), aspectos organizacionais (planejamento estratégico, aspectos jurídicos administrativos e éticos) e seminários temáticos.

“O que se pretende, com isso, é elaborar uma compreensão o mais ampla possível desta disciplina, que, mesmo sendo fundamental à prática jornalística, encontra-se praticamente alijada dos currículos de graduação”, explica Demétrio de Azeredo Soster, coordenador acadêmico do pós.

Os encontros, quinzenais, serão realizados no câmpus Santa Cruz da Unisc sempre à sextas-feiras, das 19h15min às 22h15, e aos sábados, das 8 às 12 horas e das 13 às 16 horas.

Maiores informações podem ser obtidas no site do pós, ou, ainda, pelo telefone (51) 3717.7300. Você pode acompanhar as informações também por meio do twitter .