28 de ago de 2009

Uns fakes são mais fakes que outros

Tenho dito, aqui e ali, sem pretensões totalizantes, que o uso reconfigura a forma, particularmente nas redes sociais. É o que ocorre, por exemplo, com o fenômeno fake, comum em locais como orkut, twitter, facebook, myspace etc.

No orkut, por exemplo, o fake é geralmente bem visto. Com uma condição: que seja absolutamente fake. Aprendi isso com Verônica, minha filha, que logo ali fará 14 anos.

Trata-se de uma brincadeira muito parecida com o que os escritores fazem com suas criações.

Em se tratando de fake no orkut, sai do jogo (na verdade, nem entra) quem for de verdade, ou parecer de verdade. Neste sentido, a rede social se transforma em suporte/dispositivo para uma nova rede que se estabelece, claro, a partir do orkut, mas que se reconfigura identitáriamente tendo como ponto de partida personagens de natureza ficcional. O usuário, neste caso, transforma-se em narrador, e o ambiente adquire nuanças de diegese.

No twitter, por sua vez, parece ocorrer exatamente o contrário.

Nele, as identidades fakes são vistas como intromissoras e tendem a ser deletadas e/ou denunciadas quando descobertas. Os fakes, aqui, podem ser tanto famosos quanto ilustres desconhecidos. Não importa: o perfil de uso do twitter parece não admitir este tipo de comportamento.

Tudo isso acaba por fazer com que o fenômeno fake seja alvo de ações mais pontuais na web 2.0, como bem aponta Alex Primo ao se referir, em post, ao Fakeland. Ou a preocupações específicas sobre a segurança nestes ambientes.

Não se trata de discutir a forma certa ou errada; o comportamento mais adequado, mas de observar que, em se tratando de redes sociais, a forma de uso reconfigura o perfil do dispositivo.

Compreender o que isso significa é o desafio que se apresenta.

2 comentários:

Träsel disse...

Demétrio, fiquei pensando no assunto também depois da pergunta que você me fez no Brasil na Madrugada.

Acho que os fakes são como charges das redes sociais. Quando bem executados, com a intenção correta, tornam-se uma crítica poderosa a um determinado personagem, ou à sociedade como um todo através desse personagem.

Quando mal executados ou criados por má-fé, porém, ficam parecendo piadas de mau gosto e humor negro.

Há vários exemplos de fakes interessantes no Twitter, como a @yedacrusius, o @ocriador, o @victorfasano, o @buarque68. Acho uma forma válida de uso das redes sociais.

E. Herrmann disse...

O que considero mais interessante na questão específica do Twitter é que alguns fakes são mais cultuados do que as próprias celebridades. O episódio da Xuxa expondo suas limitações, assim como outros, revelou aos desatentos que famosos não são necessariamente referências intelectuais e às vezes são um tanto quanto superestimados. Um fake criativo pode ser muito mais interessante.