23 de ago de 2009

Das coisas que me envergonho

As fotos abaixo foram capturas do site de Zero Hora e são de autoria de Fernando Ramos (acampamento e soldado sendo carregado) e Valdir Friolin (do velório).

Estão relacionadas à retirada, por parte da Brigada Militar, ainda na sexta-feira, dos colonos sem-terra que haviam invadido a Fazenda Southall, em São Gabriel, e que resultou na morte, com um tiro nas costas, no confronto, do sem-terra Elton Brum da Silva, 44.

Algumas pessoas têm me perguntado o que acho disso tudo.

Tenho dito que sinto vergonha de um estado que não instrumentaliza e treina adequadamente sua própria polícia para ações desta natureza; de um estado inoperante justamente onde deveria ser mais propositivo.

Que sinto vergonha quando percebo que neste país, reforma agrária (ainda) é algo da ordem do imaginário, e que há tanta gente sem terra e tão poucos com terra, e que são poucos dentre eles os que fazem uso adequado dela.

Que me envergonho igualmente quando observo movimentos sociais exporem seus próprios membros (homens, mulheres e crianças) à violência, apostando, quem sabe, no que isso pode gerar em termos de repercussão, à medida que desobedecem decisões judicias e optam pelo confronto, sabendo-o inevitável.

Que sinto vergonha por saber que isso está ocorrendo em meu País, e que não vai mudar tão cedo.



3 comentários:

Luciana Carvalho disse...

Também fico muito triste e envergonhada com coisas assim, Demétrio. Sou natural de São Gabriel, hoje não moro lá, mas atuei na imprensa gabrielense por sete anos e pude acompanhar in loco o início dos conflitos agrários envolvendo as terras de Southall. Sei que não há só anjinhos em todos os lados dessa história, mas também penso como você que a origem de tudo isso está nas falhas envolvendo a Reforma Agrária nesse país.

Nobrezito disse...

Acredito que a minha vergonha ficou mais potencializada nos últimos tempos - principalmente nos últimos meses que não venho fazendo nada - com o meu contato com filmes antigos, livros esquecidos, sinopses de novelas feitas há trocentos anos... e perceber que (quase) nada mudou. Pelo menos, no quesito iniciativa para acelerar esse tipo de questão.

Pr. Cláudio Moreira disse...

Sou também natural de São Gabriel. Uma morte, em qualquer circunstância, é sempre lamentável.
No entanto, uma coisa é preciso que se diga: Quem comete crimes (e invasões sao crime), está sujeito à ação repressora do Estado.
A morte deste homem em São Gabriel é uma tragédia hedionda. Como foi hediondo o assassinato de quatro reféns do MST numa invasão no Paraná. Na época, o ministro Tarso Genro disse que não houve crime, apenas "uma ação mais ousada".