2 de ago de 2009

Uma mala chamada Galvão Bueno

Abaixo, coluna de Juremir Machado da Silva publicada no Correio do Povo deste domingo, - Galvão, o parente -, para quem não tem acesso à versão impressa ou on-line:

"A palavra bizarro voltou à moda. Resolvi usá-la. Custei a encontrar um emprego para ela. Pensei bem. Achei. Galvão Bueno é bizarro. Que tipo curioso, esquisito, esdrúxulo, estranho, absurdo, patético! Ele tem um jeito de agente funerário contente com a cerimônia. Ou um de canastrão vendendo enciclopédia para analfabetos. Podia cantar tango em bordel de Palomas. Estou convencido de que o Galvão merece um emprego no Senado. Afinal, ele é o parente geral, o parente padrão, o parente de todas as celebridades que se acidentam ou morrem. É célebre, ficou doente, Galvão Bueno é o primeiro a entrar no hospital. O Sarney precisa dar um jeito de arranjar um emprego para o Galvão. De preferência, no Maranhão. Melhor, no Amapá.

Galvão é um chato. A Globo inventou o boletim ao vivo de 15 em 15 minutos para dar notícias mortas. Nada de novo, salvo o boletim e o repórter. Muda de três em três dias. Patrícia Poeta e Zeca Camargo apresentam o Fantástico menos extraordinário do planeta. Fantástico mesmo só o Galvão. Fantasticamente insuportável. O problema é que a Globo se apropriou do imaginário brasileiro. É dona do campeonato brasileiro de futebol, da Fórmula 1, do Carnaval do Rio de Janeiro, da Copa do Mundo, da Ivete Sangalo, do Gordo Ronaldo e até do especial de Natal do Roberto Carlos. Sem contar das doenças mais importantes. A gripe A é da Globo. É bem simples: adoeceu, é da Globo. Na cobertura da hospitalização do piloto Felipe Massa, a Globo inventou até o boletim pós-moderno: o estado é grave, mas estável, melhorando. Palavra de Galvão Bueno, nosso herói maior.

Imagino o Galvão Bueno no hospital húngaro:

— E o senhor quem é?

— Sou o Galvão Bueno.

— Quem?

— O Galvão Bueno da Globo.

— É parente?

— Sou da Rede Globo.

Galvão Bueno se toma por Dom Quixote, embora lembre mais o Rocinante. O ex-árbitro Arnaldo é o seu Sancho Pança. O que fizemos na última encarnação para merecer a chatice de Galvão Bueno? Pelo que estamos sendo castigados? Há muitas coisas na vida mais interessantes. Faz alguns dias, em Santana do Livramento, morreu o professor de Português e Literatura Darci Müller. Eu me lembro dele, ao final dos anos 70, declamando Jorge de Lima em sala de aula: Ora, se deu que chegou (isso já faz muito tempo)/no banguè dum meu avô/ uma negra bonitinha/ chamada negra Fulô./ Essa negra Fulô!/ Essa negra Fulô!'. Como era aquele tempo em que um homem culto ficava com os olhos brilhando ao recitar um poema. Confesso: nunca esqueci dessa negra Fulô. A voz do professor Müller ainda ressoa em mim: 'Ó Fulô! Ó Fuló! (Era a fala da Sínhá.)/ Vem me ajudar, ó Fulô,/vem abanar o meu corpo/ que eu estou suada, Fulô!/ vem coçar minha coceira,/ vem me catar cafuné,/ vem balançar minha rede,/ vem me contar uma história,/ que eu estou com sono, Fulô!' Agora, infelizmente, só me resta o Galvão Bueno recitando futebol. É a nova escravidão. Bacana".

4 comentários:

Vanessa Kannenberg disse...

Muito boa essa coluna do Juremir. Quer saber de uma coicidencia? O tal professor Darcy Muller eh meu tio, na verdade, tio da minha mae. Morreu a poucos dias, infelizmente. Inclusive, fiz uma edicao especial do Jornal 10 Familias (lembra q te contei q minha familia tinha um Jornal? eu que o edito e diagramo). Ficou bem legal. Era uma pessoa e tanto!
Obrigada por postar a cronica aqui, professor. Assim pude ler.
Abracos!

ps: esta tudo sem acento e cedilha porque nao esta funcionando aqui.

Demétrio de Azeredo Soster disse...

Pô, que coincidência, menina... E pena que o Darcy Muller se foi: certamente teria muitas histórias para contar. Quando retornarmos leva um exemplar do 10 Famílias, ok? Grande abraço!

Guilherme Póvoas disse...

Eita, assino com o Jurema.

Paulinho disse...

cara tu é o cara concordo co tudo heheheheheh chega de galvao bueno