17 de mai de 2009

O culto ao amador

A Jorge Zahar acaba de lançar um livro muito interessante, O Culto ao Amador, de Andrew Kenn. A linha de apoio explica de saída do que estamos falando: "Como blogs, MySpace, YouTube e a pirataria digital estão destruindo nossa economia, cultura e valores". Uma leiura apressada sugere um libelo contra o atual momento evolutivo que nos encontramos, de profunda imersão tecnológica, onde as grandes metanarrativas, para ficarmos em uma, são implodidas em prol daquilo que o autor chama de o "culto ao amador". Ou seja, um tempo em que, graças à web principalmente, todos têm voz e razão, sem maiores aprofundamentos conceituais. E onde, paradoxalmente, somos engolidos por tsunamis de voz ao razão possibilitados pela web, ao ponto de não nos reconhecermos mais em termos de indivíduos criadores que somos. Isso em uma leitura mais linear, ainda que haja um eco de Baudrillard em cada uma das linhas de Kenn redige.

Se observarmos com mais atenção, no entanto, veremos que o livro representa, na verdade, um registro relevante desta nova ordem comunicacional, onde lugares secularmente instituidos - e aqui me refiro especificamente à mídia - passam a ser tão somente nós e conexões de um sistema mais amplo, o midiático, agora amalgamado em rede. Ocorre que esta condição, a de um sistema midiático-comunicacional autônomo em relação aos demais sistemas, interferindo e sendo interferido pelo ambiente em que se encontra, neste caso a sociedade, acaba por implodir as, digamos assim, noções de civilidade que construímos ao longo dos séculos. Quando isso ocorre, questões como autoria, identidade e valores perdem o sentido, caso sejam olhadas com os mesmos olhos que sempre olhamos, modernos.

Mais do que afirmar que isso é certo ou errado; se é catastrófico ou não, como sugere Keen, - e ele efetivamente acredita que é o final dos tempos -, penso que o fenômeno exige novas gramáticas de reconhecimento, ainda por serem criadas. Estamos falando, portanto, de midiatização, ou seja, de uma nova ambientação onde a mídia, mais que suporte, opera como uma espécie de reguladora da sociedade, com tudo o que isso possa significar, interferindo e sendo interferida por esta em suas operações. O texto de Keen ganha mais relevância à medida que o autor não é um corpo estranho à tecnologia, haja vista que, logo na saída, diz de onde veio: em 1990, fundou o Audiocafe.com, um dos primeiros sites a disponibilizar música digital. Faz parte, portanto, da moçada do Vale do Silício.

1 comentários:

Cecília disse...

Olá, Demétrio. Tudo bem? Sou a Cecília e trabalho na Edelman, agência de comunicação da Jorge Zahar Editor. Gostaria de convidar-lhe para um chat online com o Andrew Keen, autor do livro "O Culto do Amador", nesta sexta, dia 29/05. Vai ser uma boa oportunidade de interagir com o autor e conhecer melhor suas ideias.
Mais informações aqui : http://www.talk2.com.br/?p=596
Um abraço!