3 de abr de 2011

#prontofalei

A coluna do Ombudsman da FSP desse domingo, #prontofalei, discute um assunto de primeira importância nesses dias de reconfiguração de fazeres e formas: os cuidados, direitos e deveres que devem ter os jornalistas quando suas vozes, pelo viés de dispositivos 2.0, principalmente, ganham alcance para além das redações.

O tom é de natureza moral; trata-se, sem dúvida, de uma questão ética à medida que discute o corportamento dos jornalistas, mas há outros pontos de igual relevância a serem considerados na tessitura do texto de Suzana Singer.

O mais evidente, a meus olhos, é a reconfiguração espaço-temporal que se estabelece na vida dos jornalistas em determinado cenário, personificada, em termos de forma, de um lado, pelos nós e conexões da web, enquanto que, por outro, pela diferença que o fazer jornalístico per si representa quando em contato com os fazeres dos demais campos sociais.

Por esse viés, por exemplo, a tendência é que sejamos jornalistas não apenas nos lugares em que estamos acostumados a sê-lo, e esse alargamento complexifica, claro, para além da ética, as questões organizacionais também, mas muda, inclusive, o "ser-se", a "forma como se está", o "lugar de onde se diz", o que exige, uma vez mais, novas e sucessivas gramáticas interpretativas.

Negar essa perspectiva é ficamos presos às velhas formas/fórmulas e a discussão não avançar.

Para quem não tem acesso ao UOL, reproduzo abaixo a coluna.


"A BLOGOSFERA dá a qualquer um a chance de divulgar o que passa pela sua cabeça a todo momento. No jornalismo, sem o filtro da edição, essa modernidade tem sido uma fonte de problemas. Na quarta-feira passada, após o anúncio da morte de José Alencar, havia no Twitter:

Repórter da Folha: "Nunca um obituário esteve tão pronto. É só apertar o botão."

Repórter do Agora: "Mas na Folha.com nada ainda... esqueceram de apertar o botão. rs" (risos)

Repórter da Folha: "Ah sim, a melhor orientação ever. O último a dar qualquer morte. É o preço por um erro gravíssimo."

Um diálogo ruim, de todos os pontos de vista. É insensível jogar na cara do leitor que há obituários prontos à espera do momento de publicação. Não faz sentido um jornalista criticar, publicamente, um site da mesma empresa. E não deixa de ser desagradável lembrar um problema recente -a divulgação errada, pela Folha.com, da morte do senador Romeu Tuma.

Em janeiro, um fotógrafo colaborador do "Agora", que cobria as eleições para presidente do Palmeiras, escreveu: "Enquanto os porcos não se decidem poderiam mandar mais lanchinhos e refrigerante para a imprensa que assiste ao jogo do Timão na sala de imprensa". A reação foi rápida e violenta: ele apanhou de seguranças do time.

É difícil convencer jornalistas de que suas contas no Twitter, Facebook ou Orkut não podem ser encaradas apenas como pessoais. O repórter é seguido, curtido, recomendado, também como um representante do lugar em que trabalha.

Em um comunicado de 2009, que merece ser atualizado, a chefia da Redação lembrava que todos devem seguir os princípios do projeto editorial quando estiverem on-line.

Seria bom esmiuçar isso. Jornalista não pode declarar voto político, xingar artistas, amaldiçoar o time de futebol rival, bater boca com leitores, expressar preconceito nem tentar obter vantagem pessoal (reclamar, por exemplo, do mau atendimento num restaurante para que saibam que ele é da imprensa).

É muito limitante, mas o repórter precisa considerar que amanhã poderá ser cobrado por uma opinião "inocente". Em um plantão, alguém de Esporte pode ser designado para entrevistar determinado político. E se ele tiver postado, dias antes, que o sujeito é um "corrupto contumaz"?

Quem mais luta pela liberdade de expressão precisa restringir a própria para não perder a razão."

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