22 de mai de 2010

Sobre bactérias, DNA e midiatização

A semana que se encerrou foi particularmente relevante quando o assunto é "instauração de novas ambientações" pelo anúncio, na mídia, de que algo vivo, neste caso uma cadeia completa de DNA, foi gerado a partir da conjunção entre a) um computador e b) matrizes biológicas.

A bactéria Mycoplasma mycoides recebeu um genoma sintetizado por um software, tornando-se, dessa forma, "(...) a primeira espécie viva no planeta terra que tem um computador como pai", segundo o cientista Craig Venter, protagonista da façanha. (Veja matéria completa por aqui).

O que isso muda? Na verdade não muda, continua.

Se observarmos que a midiatização, enquanto fenômeno de matizes sócio-técnicos-discursivos, representa a instauração de uma nova ambiência na sociedade a partir do momento em que as máquinas deixam a posição de apêndice para se tornarem parte integrante desta, veremos que a descoberta de Craig Venter possui raízes tão antigas quanto a humanidade.

Ou seja, que esta relação (homens/máquinas) é inerente ao ser-se homem; haja vista, digamos assim, nossa insufiência biológica no que toca à sobrevivência.

Sob outro ângulo, trata-se de um marco diferenciado este, de uma forma de relação específica, haja vista que as máquinas tornaram possível a vida.

Não percamos tempo com discussões datadas, ainda que relevantes: é claro que, atrás dos bytes há homens; mas o fato é que um programa especialista tornou a tarefa possível, quando, até então, servia de ferramenta a este propósito.

Há uma diferença aí. Sutil, mas uma diferença: até bem pouco, as complexificações geradas pela midiatização eram mais visíveis processualmente na dinâmica de funcionamento dos campos sociais; interferindo, por meio de fluxos informacionais, principalmente nas operações destes.

Agora podem criar a vida.

É preciso pensar mais sobre o assunto ainda; refletir mais.

Parece-me claro, no entanto, que ainda estamos bem distante do cenário (e das dúvidas) do Blade Runner de Ridley Scott, assim como talvez possamos afirmar que se instaure, a partir dessa descoberta, um novo momento-mundo, que exige, igualmente, gramáticas de reconhecimento específicas.

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