Mostrando postagens com marcador Midiatização. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Midiatização. Mostrar todas as postagens

10 de mar. de 2012

Cultura digital en America Latina

Compartilho, por necessário, o livro Cultura Digital en America Latina: Investigación Interuniversitaria Educación e Evangelización, editado pelo Centro de Educación Comunicativa Audiovisual (Cedal), de Bogotá, Colômbia.

Em particular o capítulo IX, à página 205 - Qué cultura se configura com los dispositivos digitales? Inferencias a partir de casos investigados desde el enfoque de la mediatización a partir de la web 2.0.

A autoria do capítulo é de Jairo Ferreira, do PPGC da Unisinos, e dialoga com a pesquisa que realizamos desde a tese de doutorado.

19 de mar. de 2011

Auto e co-referência no jornalismo

A dissertação da agora mestre Aline Weschenfelder, defendida essa semana, na Unisinos, cuja pesquisa foi orientada por Christa Berger e que contou, além de mim, com Antônio Fausto Neto na argüição, faz uma importante constatação quando o assunto é reconfiguração do jornalismo: que os dispositivos (no caso, a revista Veja) reproduzem em seu interior as mesmas operações do sistema em que se inserem.

Esse movimento pode ser percebido, por exemplo, quando Veja referencia, no editorial, conteúdo da própria revista (páginas amarelas, reportagens especiais etc.), quando seria de se esperar que o fizesse junto ao ambiente externo em que o sistema midiático se insere. O que muda com isso? Passa-se a oferecer, dessa forma, aos seus leitores mais credibilidade (a constatação de Aline). Mas também, aos meus olhos, identidade em relação aos demais dispositivos do sistema midiático-comunicacional.

Observe-se, nesse sentido, que a autorreferencialidade, nos moldes propostos por Luhmann, é uma operação que o sistema realiza por meio da autopoiésis (por ela, a autorreferência deixa o âmbito estrutural para o operacional), entre outros, para a) reduzir sua complexidade, garantindo, dessa forma, sua própria manutenção e b)estabelecer, nesse processo, diferenças.

Em minha tese, defendi que, para além da auto-referência, o sistema midiático-comunicacional realiza em seu interior mais uma operação - a co-referência, uma forma de acoplamento que se estabelece, por exemplo, quando quando o conteúdo de um dispositivo "irrita" outro e este para a usar o primeiro como fonte, mantendo a operação, inicialmente, no âmbito do sistema midiático, para somente então interferir (e ser interferido) no meio em que se insere e nos demais sistemas.

É nesse ponto que percebo um avanço na disseração de Aline, intitulada "Aos leitores: as estratégias de autorreferencialidade no editorial de Veja": ela transfere a perspectiva descrita acima para o interior do próprio dispositivo, o que nos permite observar a geração se sentidos que se estabelece também nesse âmbito.

Compreender operações dessa natureza implica observar a midiatização, ou seja, a instauração de uma ambiência a partir de um cenário específico, de natureza tecnológica, mas também social e discursiva, que afeta o modo de ser dessa mesma sociedade. Se o faz, complexifica também o jornalismo, midiatizando-o, reconfigurando-o uma vez mais.

4 de nov. de 2010

Processualidade complexificadas

O livro Midiatização e processos sociais: aspectos metodológicos (Edunisc, 2010), organizado por Antônio Fausto Neto, Jairo Ferreira, José Luiz Braga e Pedro Gilberto Gomes, com prefácio de minha lavra, será lançado dia 13 de novembro, às 16h30, na Feira do Livro de Porto Alegre.


Abaixo, um trecho do prefácio:

"Este livro representa bem mais que a compilação das discussões realizadas de 19 a 21 de novembro de 2009 na Universidade do Vale do Sinos (Unisinos), por ocasião do seminário “Midiatização e Processos Sociais – Aspectos Metodológicos”, promovido pela Rede Prosul. Trata-se, antes, de um importante marco referencial nas buscas que pesquisadores do Brasil, Colômbia, Argentina e Uruguai têm realizado nos últimos cinco anos em torno do fenômeno da midiatização.

O estágio evolutivo da pesquisa é diferenciado porque, uma vez tendo-se auscultado, observado e discutido a midiatização de forma sistemática por meio de encontros, publicações e discussões as mais diversas – e considerando-se, ainda, que esta etapa não se encerra nestes movimentos –, parte-se, agora, para a instrumentalização metodológica da investigação.

Ou seja, para a organização de ferramental adequado que permita, ao que pesquisa a midiatização, ou acompanha de perto as discussões a respeito do tema, estabelecer os cruzamentos necessários entre as reflexões que realiza e os objetos-alvo de suas dúvidas, emprestando, dessa forma, mais amplitude ao conhecimento resultante dessa processualidade.

O livro 'Midiatização e Processos Sociais – Aspectos Metodológicos' ganha ainda mais relevância à medida que a midiatização, aqui entendida como a instauração de uma nova ambiência na sociedade a partir de um cenário específico, de matizes sócio-técnico-discursivos, representa mais que um fenômeno de contornos em movimento: trata-se, antes, de processualidades que se complexificam a cada momento, de forma ininterrupta, constante, afetando e sendo afetadas neste movimento; exigindo, como dissemos, daquele que pesquisa, mais que versatilidade conceitual, novos e sucessivos instrumentais analíticos.

Some-se a isso o fato de a midiatização da sociedade ser percebida por pesquisadores locados em um campo cujas fronteiras são limítrofes aos demais campos do conhecimento, caso da comunicação, e veremos, então, que se trata de um momento diferenciado o que se segue, e que requer, portanto, gramática explicativa adequada, à revelia do âmbito que estejamos falando. (...)"

A ficha:

Organizadores: Antônio Fausto Neto, Jairo Ferreira, José Luiz Braga e Pedro Gilberto Gomes
Área: Ciências Sociais Aplicadas
Ano: 2010
Páginas: 192
Formato: 14x21cm Brochura
ISBN: 978-85-7578-280-4
Categoria: Ciências Sociais Aplicadas
Código: 96751
Preço: R$ 33,00

19 de set. de 2010

Anotações sobre a midiatização

Quando o assunto é observar as afetações que o jornalismo sofre ao ser atingido pela processualidade da midiatização, midiatizando-se, são em número de três as complexificações mais visíveis, a saber: auto-referência, co-referência, e, finalmente, descentralização.

Ou seja, neste cenário, midiatizado, o jornalismo, enquanto prática social de sentido e de natureza discursiva, volta suas operações a) para o interior do sistema midiático, b) para os dispositivos que compõem o sistema midiático e, finalmente, c) deixa de ser um lugar central do ponto de vista institucional, tornando-se, agora, nó, conexão de um sistema mais amplo, cuja centralidade se estabelece em sua processualidade, regida por fluxos informacionais.

Escrevo isso para dizer que acabo de me deparar, via site do UOL, com um exemplo bastante interessante de como a auto-referência e a co-referência se estabelecem em uma perspectiva de web, envolvendo um portal e o twitter.


É o que se verifica na seção "Celebridades" do UOL, por meio de matéria dando conta que o apresentado de televisão Luciano Huck havia postado, no twitter, um desabafo sobre a forma como os motoristas de ônibus de São Paulo dirigem.

Por este viés, um dispositivo (o site UOL, pela seção "Celebridades") se pauta, em primeiro lugar, pelo que ocorreu no interior do sistema midiático-comunicacional, em uma perpectiva auto-convergente. Ao fazê-lo, co-referencia a operação de outro disposivo (o twitter), caracterizando, como disse, dessa forma, o momento em que a midiatização interfere na processualidade do jornalismo.

Observa-se, aqui, também um descolamento do estatuto da notícia.

Ela passa a existir, em primeiro lugar, a partir do momento em que a própria fonte (o apresentador) relata o ocorrido por meio da rede social. Com isso, rompe a delicada membrana entre ambiente e sistema e conduz - a fonte, não o repórter - o acontecimento para dentro do sistema, onde as operações terão lugar daí para a frente até que ela seja novamente devolvida para o ambiente em que o sistema se insere até ser novamente reabsorvida.

Nete movimento, transforma e é transformada, em um ciclo que se encerra somente com a extinção do acontecimento.

18 de ago. de 2010

Seminário discute ciência e midiatização


O Seminário Midiatização da Ciência, realizado pela Unisinos entre 30 e 31 de agosto, realiza-se no contexto da pesquisa “Midiatização do discurso científico – Contratos de leitura, cenários, processos e estratégias” e reúne pesquisadores, cientistas e comunicólogos em torno de mesas de trabalho que visam refletir sobre os atuais processos de midiatização da ciência.

Mais informações por aqui.

26 de jul. de 2010

O acabamento de outro chão

Segue abaixo trecho de entrevista que Muniz Sodré concedeu a Paulo Cesar Castro.

Sobre midiatização, mas também sobre pesquisa.

A entrevista se chama "Muniz Sodré: 'Midiatização como o acabamento de outro chão' e está disponível, na íntegra, no site do Centro Internacional de Semiótica e Comunicação (Ciseo)

"Em termos teóricos e de objetos estudados, como você vem acompanhando a discussão sobre o conceito de midiatização?
Muniz Sodré: Tenho acompanhado pouco porque estou à frente da Biblioteca Nacional. Mas leio tudo que chega. A professora Raquel Paiva deu uma entrevista importante para a Compós, na qual também foram ouvidos o André Lemos, da Universidade Federal da Bahia, e a Bernadette Lyra, da Universidade Anhembi Morumbi. E o que ela diz? Que acha que a nossa área não gera conhecimento, o que eu achei muito interessante. Ou seja, produz-se muita coisa, muito artigo, veste naquela camisinha de força da Capes, faz as citações, bota embaixo, cita fulano de tal, mas você dialoga com você mesmo. Cita-se livros estrangeiros, mas o diálogo é com você mesmo, ao invés de pegar as pessoas da área. Isso não é uma queixa minha, porque naquela bibliometria que a professora Immacolata fez, eu era uma das pessoas, se não a mais citada, uma das mais citadas; eu, o Arlindo Machado, Jesus Martin Barbero... Então não é um problema que diga respeito a mim. Mas é verdade isso que a Raquel diz. As pessoas não discutem as idéias dos colegas da área. E o que é o conhecimento? O conhecimento é: “alguém A produz um saber, que é observado por B, criticado por C”. Há na produção e circulação de saber numa comunidade que, na área de Exatas, se aplica... Você pode resolver uma equação que está aí há séculos, que ninguém resolveu, você faz todos os cálculos, mas não basta. Se a comunidade científica não reconhecer como verdadeira aquela evolução, você pena. Você não tem certeza, pois a coisa ali é tão abstrata, principalmente em matemática, porque não se reconhece. Assim é com outras áreas das exatas. Mas em Ciências Sociais, as pessoas citam muitos os estrangeiros, mas quase que idéia própria não é muito bemvinda. Mas uma vez eu lhe digo, eu não me queixo muito. Essa minha idéia, esse conceito do bios que está no Antropológica do Espelho, tem muita gente que trabalha com isso agora. A questão do sensível não tanto, mas eu acho que é uma complementação do outro. Mas você não vê crítica, pois é quase uma ofensa você criticar alguém. E eu não sinto isso. Eu gostaria muito de ver alguém criticar mesmo, duramente, dizendo “eu não aceito isso”. Aí você passa a ter um debate... A Compós e a Intercom deveriam ser os lugares para isso, mas não. O que acontece? Você faz burocraticamente o seu texto, o seu paper, lê ali, as pessoas, uma ou outra, fazem uma observação na hora e foi cumprida uma tarefa diante da Capes e do CNPq. A área não produz conhecimento. É como se esse conhecimento não fosse necessário. Então, esses estudos sobre midiatização, eu recebo revistas, livros, estou a par deles, mas lhe digo que não me iluminam muito. Às vezes, há até artigos bastante detalhados de questões locais, mas as citações são burocráticas.

Você acha que o conceito de midiatização atualiza o debate acerca do papel das mídias nas sociedades contemporâneas?
Muniz Sodré: Acho. Foram muitos anos para que esse conceito entrasse. Não sei se você sabe, mas eu sou o introdutor dele aqui. No primeiro dicionário do Aurélio, não sei o atual, a palavra midiatização está lá referida a mim. Não havia, mas também não fui eu que inventei. Eu vi isso do Eliseo Verón, que usava mediatizacion. O que eu introduzi não foi nada de novo, mas a novidade é que eu introduzi aqui. Eu acho que a midiatização é um conceito axial da mídia, que abrange televisão, jornais e internet. São momentos técnicos diferenciados desse fenômeno de articulação das instituições, da vida das pessoas com a mídia. Midiatização é isso, essa articulação com instituições, com tecnologias, com a vida das pessoas. Portanto, você tem aí um objeto teórico, com medium como objeto teórico. Medium não é a televisão, não é a internet, medium é uma forma que interliga o discurso social. Como em Marx, o conceito de mais valia você não encontra em nenhum livro contábil. Mais valia é um conceito teórico, não está no livro de contabilidade capitalista. É um conceito para dar conta da apropriação que o capitalismo faz de uma parte do trabalho, do rendimento do trabalho. Medium é a mesma coisa, é um conceito dessa intervenção, dessa apropriação do discurso anterior que a indústria do jornal, da televisão e, agora, a da eletrônica faz.

Então o conceito de midiatização assume importância no momento em que consideramos que a preponderância dos meios de comunicação chega a um ápice?
Muniz Sodré: Exatamente. A consciência de que eles assumem um solo social, e que esse solo é feito de informação. Quer dizer, tradicionalmente, com relação ao jornal e ao rádio, a informação é uma coisa que partia de rádio, jornal e revista para o público, com conteúdo. E a informação hoje, não; a informação é o próprio território onde você pisa. E isso não é um delírio teórico, porque com a eletrônica, com a internet, com as possibilidades que temos hoje de metaversos, de avatares, de uma realidade virtual por onde os jogos estão se movendo, essa turma está se movendo cada vez mais dentro disso. É claro que ele vai pisar no chão da casa dele, mas pode não ter mais tanta importância pisar no chão da casa dele. Ele está pisando noutro chão. É isso que é o acabamento da midiatização, é o acabamento no sentido de perfeição do sistema. Então, claro que a política é afetada, que a educação é afetada – estou agora interessado na educação –, esses modos de relacionamento são afetados. Mas a política, claramente".

Pentálogo 2 ocorrerá em setembro

Acabo de receber convite de Antônio Fausto Neto referente ao Pentálogo 2, evento promovido pelo Centro Internacional de Semiótica e Comunicação – Ciseco, a ser realizado em Japaratinga (Alagoas), entre 20 e 24 de setembro de 2010, no Hotel Albacora.



O tema da reunião abordará reflexão sobre "Economia e Discursividades Sociais - Explorações da semiose econômica", examinando as relações entre discurso econômico, sociedade e mídia. Está subjacente a essa temática o modo como as mídias trataram a crise econômica de 2008.

Serão realizadas, durante o Pentálogo, no dia 23 de setembro, mesas reunindo trabalho de pesquisadores que desejam expor alguma comunicação convergente com o tema do evento.

Quem estiver interessado em apresentar trabalhos pode fazê-lo até o dia 10 de agosto, por meio de título com resumo de dez linhas sobre a sua proposta de apresentação.

O texto deve ser enviado para os seguintes e-mails: Antônio Fausto Neto ou Aline, secretária.

Em caso de aceite, o texto final deverá ser enviado à secretaria do congresso para posterior publicação em livro.

25 de jul. de 2010

Quando pouco parece muito

O site do Instituto Humanitas Unisinos (IHU) informa, via twitter - @_ihu - uma interessante análise de Umair Haque, diretor do Havas Media Lab e fundador da Bubblegeneration, uma agência de consultoria para estratégia e inovação.

O artigo, traduzido por Moisés Sbardelotto, foi publicado em seu blog na página da revista Harvard Business Review, a 23 de março do corrente.

Refere-se à "inflação de relacionamentos", ou seja, quando "você tem muito mais relacionamentos – mas, na realidade, poucos, se é que há, são realmente valiosos. Assim como a inflação da moeda deprecia o dinheiro, a inflação social degrada os relacionamentos."

A hipótese que Umair Haque propõe é que, apesar de toda a empolgação em torno das mídias sociais, a Internet não está nos conectando tanto quanto nós pensamos que ela esteja.

"Ela é, em grande parte, o lar para conexões fracas e artificiais, o que eu chamo de relacionamentos tênues [thin relationships]."

Isso afeta, sob esta perspectiva, a confiança - cresce o número de relacionamentos, mas não sua qualidade -, a exclusão social, a noção de valor e assim sucessivamente.

Para quem já leu Andrew Keen, ou, antes dele, Jean Baudrillard, o ponto de vista não é dos mais originais, mas traz consigo uma questão de fundo aos meus olhos interessante.

Ou seja, a reconfiguração de um determinado modelo de sociedade por meio da realocação do papel que a tecnologia exerce nela quando deixa de se estabelecer como suporte à atividade humana e se posiciona como ambiente desta, sem a qual a vida social ficaria bem (mais) complicada.

Penso que Umair Haque não está equivocado em sua análise: o mundo está se fragmentando; os valores a partir dos quais nos estabelecemos socialmente servem cada vez menos neste cenário de tantas e tão rápidas mudanças em que nos encontramos.

O problema é que o horizonte que se avizinha exige novas gramáticas explicativas, sem as quais seguiremos eternamente presos ao passado, como se nada mais houvesse pela frente.

22 de mai. de 2010

Sobre bactérias, DNA e midiatização

A semana que se encerrou foi particularmente relevante quando o assunto é "instauração de novas ambientações" pelo anúncio, na mídia, de que algo vivo, neste caso uma cadeia completa de DNA, foi gerado a partir da conjunção entre a) um computador e b) matrizes biológicas.

A bactéria Mycoplasma mycoides recebeu um genoma sintetizado por um software, tornando-se, dessa forma, "(...) a primeira espécie viva no planeta terra que tem um computador como pai", segundo o cientista Craig Venter, protagonista da façanha. (Veja matéria completa por aqui).

O que isso muda? Na verdade não muda, continua.

Se observarmos que a midiatização, enquanto fenômeno de matizes sócio-técnicos-discursivos, representa a instauração de uma nova ambiência na sociedade a partir do momento em que as máquinas deixam a posição de apêndice para se tornarem parte integrante desta, veremos que a descoberta de Craig Venter possui raízes tão antigas quanto a humanidade.

Ou seja, que esta relação (homens/máquinas) é inerente ao ser-se homem; haja vista, digamos assim, nossa insufiência biológica no que toca à sobrevivência.

Sob outro ângulo, trata-se de um marco diferenciado este, de uma forma de relação específica, haja vista que as máquinas tornaram possível a vida.

Não percamos tempo com discussões datadas, ainda que relevantes: é claro que, atrás dos bytes há homens; mas o fato é que um programa especialista tornou a tarefa possível, quando, até então, servia de ferramenta a este propósito.

Há uma diferença aí. Sutil, mas uma diferença: até bem pouco, as complexificações geradas pela midiatização eram mais visíveis processualmente na dinâmica de funcionamento dos campos sociais; interferindo, por meio de fluxos informacionais, principalmente nas operações destes.

Agora podem criar a vida.

É preciso pensar mais sobre o assunto ainda; refletir mais.

Parece-me claro, no entanto, que ainda estamos bem distante do cenário (e das dúvidas) do Blade Runner de Ridley Scott, assim como talvez possamos afirmar que se instaure, a partir dessa descoberta, um novo momento-mundo, que exige, igualmente, gramáticas de reconhecimento específicas.

8 de abr. de 2010

Carlón fará seminário na Unisinos

7 de mar. de 2010

Sobre algumas das mudanças em curso

Que o jornalismo está mudando, particularmente a partir do momento em que os primeiros jornais migraram para a web, em 1995, aqui no Brasil, não chega a ser uma novidade.

As mudanças se manifestam, grosso modo, de duas formas:

a) por meio do surgimento de novos dispositivos, caso dos sites, blogs e microblogs;

b) mas também pela reconfiguração dos tradicionais jornais e revistas impressos, rádios e televisões.

Some-se a esses o cinema e os livros no que eles têm de jornalístico e se verá, então, que o palco das mudanças é largo.

A internet exerce um papel central nessa mudança, à medida que seus nós e conexões, ao permitir, entre outros, mais vazão aos fluxos informativos entre os dispositivos (sempre existiram, mas agora estão mais rápidos, mais fluentes), dá forma ao sistema que chamo de midiático-comunicacional, formado pelos novos e "velhos" dispositivos.

Se, de um lado, as tais reconfigurações implicam, inclusive, perdas de leitores/audiência (há mais fatias no bolo, com o perdão da má figura), também provocam reações as mais diversas, todas elas interessantes.

Duas delas, envolvendo dois dos maiores jornais do país - a Folha (de quem já falamos aqui) e o Estado e de S. Paulo - estão em processo.

Tanto o da Folha, anunciado a 28 de fevereiro e previsto para maio, quanto o do Estado, que veio a público hoje e deve estrear domingo, 14, prometem páginas mais interessantes (novas fontes, valorização de imagens, mais análise etc.) e, no caso de O Estado, mudanças também no portal, em uma perspectiva convergente.

Observe-se que, em comum, as mudança acabam por aproximar ainda mais, em termos processuais, o que é da ordem dos átomos e dos dígitos.

Para quê?

Claro que para tentar evitar as sucessivas quedas em termos de circulação (hoje, na casa dos 300 mil para os dois jornais), mas também para equalizar estes dispositivos na lógica de funcionamento do sistema midiático-comunicacional.

Traduzindo para o português: no cenário descrito, sobreviverá, uma vez mais, os dispositos que melhor se adaptarem à lógica operacional do sistema em que se inserem.

E isso, sabemos; este adaptar-se, nem sempre é fácil.

Sobretudo, exige capacidade de transforção.

4 de jan. de 2010

Gafe de Bóris é midiatizada

Uma das características daquele que chamo jornalismo midiatizado é o fato de a mídia, quando imersa em uma estrutura de rede, usar cada vez mais a própria mídia como fonte de suas matérias.

Este movimento, de natureza auto-referencial, não chega a ser bem uma novidade, mas ganha contornos diferenciados no atual momento evolutivo do jornalismo, basicamente porque reconfigura suas mais diversas instâncias.

É o que se pode observar com o vídeo abaixo, veiculado pelo UOL. Sobre uma gafe que Boris Casoy, âncora da Band, cometeu.

Contextualizando: a emissora exibiu uma matéria, Bóris disse uma bobagem qualquer por trás das câmeras e o áudio acabou vazando. O UOL valeu-se deste vazamento e transformou o comentário em matéria. Ou seja, acontecimento de natureza jornalística. Mas também em munição na briga por audiência entre as emissoras (o UOL é do grupo Folha, concorrente da Band).

Deixando de lado a, digamos assim, grosseria de Bóris, também chama atenção o quão tosco é o vídeo.

Vejam com seus próprios olhos. Ouçam com seus próprios ouvidos.

3 de ago. de 2009

Pentálogo de Alagoas: convite

14 de jul. de 2009

Eco abre Pentálogo inaugural em Alagoas

Estão abertas as inscrições para o evento Transformações da Midiatização Presidencial: Corpos, Relatos, Negociações, Resistências, a ser realizado de 28 de setembro a 2 de outubro, no Hotel Bittingui, em Japaratinga (Alagoas). A atividade marca o início dos trabalhos do Centro Internacional de Semiótica e Comunicação – Ciseco, no Brasil.

Segundo seus organizadores, trata-se de uma reunião científica designada como Pentálogo, que durante cinco dias reunirá especialistas internacionais de vários centros de pesquisas. O evento deverá reunir pesquisadores, docentes e intelectuais brasileiros e internacionais, com diferentes inserções em universidades da França, Argentina, Itália, Chile, Colômbia, Estados Unidos, México, Venezuela, Bolívia e Brasil.

A abertura ocorrerá dia 28, com apresentação do Ciseco por Antonio Fausto Neto, Geraldo Nunes e Eliseo Verón. Já o Pentálogo será apresentado por Antonio Fausto Neto, Jean Mouchon e Eliseo Verón. A sessão de abertura será com Umberto Eco, da Università di Bologna, Italia.

Mais informações sobre o Pentálogo inaugural podem ser obtidas por aqui.

27 de jun. de 2009

Twitter e tevê dialogam mais intensamente

A cada dia que se passa encontro mais exemplos do que trabalhei em minha tese, ainda que neste caso não diretamente voltado ao jornalismo. Ou seja, mostras de que, em um cenário de profunda imersão tecnológica, o sistema midiático-comunicacional tende a voltar suas operações para seu próprio interior, em uma perspectiva auto-referencial. Com isso, adquire contornos mais visíveis em relação aos demais sistemas (econômico, político etc.), autonomizando-se. Mas não apenas: interfere e é interferido pelos demais sistemas, funcionando como uma espécie de regulador destes. Ocorre que, quando isso se verifica - e eis minha tese - também os dispositivos que compõem o sistema midiático se midiatizam, ou seja, sofrem afetações as mais diversas.

É o que se pode observar, por exemplo, na matéria publicada na página E10 da Ilustrada, by Folha de São Paulo, deste sábado. O texto, intitulado "Fenômeno da internet, Twitter conquista a TV", explica como os apresentadores de televisão brasileiros estão se utilizando dos microblogs para se aproximar da audiência. Ou, por outras palavras, registra a mudança de operação que se estabelece quando os dois dispositivos - twitter e televisão - encontram-se no mesmo plano operacional, o que só é possível se pensar considerando-se a internet como um elemento que amalgama o sistema midiático.

O fato de a mídia dialogar com a própria mídia é novidade? Certamente que não. Isso sempre ocorreu. A diferença é que agora isso parece estar ocorrendo com mais intensidade, basicamente porque o momento evolutivo atual, de profunda imersão tecnológica, é substancialmente diferente de tudo o que vimos e vivemos até então. A internet, como observei, é parte fundamental deste processo. A isso chamo de midiatização.

Para quem assina a Folha, entre na matéria por aqui.

10 de mai. de 2009

Midiatização reconfigura fluxo informativo da Globo

O Fantástico deste domingo acaba de veicular uma notícia que, a meus olhos, reflete bem a perspectiva que defendi em minha tese de doutorado. Ou seja, que os dispositivos jornalísticos-comunicacionais, ao se estabelecerem como vetores de midiatização, são afetados pela processualidade desta. Em palavras simples, midiatização representa uma nova forma de inteligibilidade social, onde a sociedade percebe e é percebida pelo fenômento da mídia. Pois bem, na referida matéria, uma repórter (raramente gravo nomes próprios, desculpem-me) transmite um boletim defronte ao Ministério da Saúde, em Brasília. Algumas pessoas, por meio de recados gravados com webcans caseiras, entram em contato com a Globo para dizer que viram ratos atrás da referida repórter enquanto ela transmitia sua notícia. Isso fez com que o Fantástico produzisse uma matéria sobre este evento, ou seja, sobre o fato de as pessoas terem visto ratos e terem mandado, por meio da web, as imagens à Globo. Matéria esta que, por sua vez, sofreu uma nova mudança de ângulo e acabou se transformando em um relato sobre ratos nas cidades grandes, entre estas São Paulo, onde haveria mais ratos que pessoas, segundo um especialista. É meio nojento, eu sei, mas interessante o fenômeno. Observe-se, e este é um dos pontos analisados em minha tese, que, com isso, o aparato midiático também acaba se reconfigurando por meio de fluxos informativos, complexificando, assim, entre outros, os pólos de emissão e recepção que conhecemos desde há muito, mas também as formas da própria notícia. A este fenômeno dou o nome de jornalismo midiatizado, sobre o que voltaremos a falar mais adiante.

7 de mai. de 2009

Midiatização incorpora instituição e linguagem

O trecho abaixo é o excerto de uma entrevista que o professor José Luiz Braga, do PPGCom da Unisinos, concedeu à bolsista de iniciação científica do programa Luísa Schenato. O texto foi publicado no site Midiatização e Eventos Sociais. Acesse a entrevista completa por aqui.

"Penso sobretudo "midiatização" como processo. Não se trata de enfatizar os meios eletrônicos (como se "estudar midiatização" fosse "estudar os meios" ou o desenvolvimento tecnológico). Mas sim o fato de que os processos interacionais da sociedade se tornam crescentemente midiatizados. Escrevi um artigo em que observo a tendência atual de se instalarem como "processo interacional de referência", em substituição ao livro e à escrita impressa.

Esta questão se relaciona às percepções vigentes sobre o que caracteriza o campo de estudos em Comunicação. É inegável, aí, uma presença intensa da mídia como objeto de observação. Assim, é possível assumir a posição de que "estudar a mídia" é o que define o campo. Nesse âmbito, cabe afirmar que "midiatização", como objeto, corresponde a estar atento aos processos da mídia, em suas peculiaridades. Certamente.

Por outro lado, cria-se aí um problema interessante, que é o de definir o que seja "mídia". Para alguns, são os meios de comunicação com alto insumo tecnológico, e que tipicamente envolvem os processos audiovisuais. Outros enfatizam, na mídia, os processos empresariais, industriais.

Outros, ainda, assumem uma perspectiva bem mais abrangente - chegando ao nível holístico, em que "tudo é mídia" - a roupa, a dança, toda sorte de próteses, os gestos as expressões faciais, o corpo, os ambientes arquitetônicos... É claro que isso não ajuda muito - porque, se é verdade que tudo pode participar de comunicações específicas, não decorre daí que tudo seja comunicação, ou que todas essas participações tenham igual peso. Na afirmação abrangente, perdemos especificidade. Outro problema associado é o de uma afirmação genérica de que tal coisa "é mídia" - mas depois estudá-la nos seus aspectos mais habituais e vinculados a outras disciplinas do conhecimento. Ora, se eu faço um estudo sobre investimento e lucro nas empresas de televisão, estou fazendo "economia" e não "comunicação" (mesmo que os resultados desse estudo possam nos interessar).

Assim, mais que o foco na mídia, assumo como central, a processualidade interacional. Mas aí, preciso explicar porque a mídia (e particularmente a mídia contemporânea, eletrônica) é tomada tão obsessivamente como nosso objeto de observação - uma vez que os processos interacionais também ocorrem fora dela. Com isso, chego à perspectiva de que a mídia interessa não porque seja o objeto metodológico caracterizador dos estudos de Comunicação, mas por outras duas razões. A primeira, é porque foi o desenvolvimento da mídia contemporânea que viabilizou uma percepção dos fenômenos comunicacionais de modo distinto de outros fenômenos sociais. A segunda, porque historicamente está se estabelecendo como "processo interacional de referência". Essa situação em processo é que se caracterizaria como a "midiatização" da sociedade."

1 de mai. de 2009

FSP explica suas próprias operações

A Folha de São Paulo de hoje, cuja edição possui 42 páginas, faz 22 referências às operações da própria FSP em suas matérias, sendo a maior incidência nos cadernos Cotidiano (seis vezes) e Ilustrada (cinco vezes). Não registrei nenhuma referências às operações da FSP na capa e nas duas páginas de Opinião. Para além destas, a mídia em geral possui cerca de 30 citações na edição. Jornais, revistas, portais, agências e sites são muito citados no caderno principal (na página A3, por exemplo, há referências às revistas Isto É e Piauí, além dos Economist (duas), Financial Times (duas), Energy, Valor, Wall Street Journal (três), Washington Post, New York Times, além das agências Associated Press e Reuters Brasil, mais portal UOL). Na editoria de Mundo, por sua vez, há referências genéricas nas matérias a "agências internacionais" (páginas A12 e A13, mas também à revista Science (duas). Interessantes estes exemplos.

Se observarmos com mais atenção, veremos que há dois níveis de referência:

1 No primeiro caso, onde registramos 22 incidências, a FSP explica suas próprias operações no corpo do noticiário por meio do registro, em bold, da palavra Folha. Informações tais como uma visita à sede da FSP, um documento que esta recebeu, uma informação que apurou etc.

2 Nos outros exemplos, onde entram os demais dispositivos, incluindo entre estes as agências de notícia, as referências dizem respeito especificamente a assuntos abordados por estes. Ou seja, são fontes para a FSP.

O que isso tudo que dizer? Quer me parecer que sejam exemplos interessantes quando o assunto é observar o atual cenário midiático-comunicacional em que nos encontramos, ainda que sem maiores rigores científicos. Por outras palavras, ao se referenciar às suas próprias operações, a FSP está fazendo um pouco daquilo de Fausto Neto apontou no capítulo que escreveu do livro Edição em Jornalismo: Ensino, Teoria e Prática (Edunisc, 2006). Ou seja, oferecendo novos critérios de credibilidade por meio de operações de natureza auto-referencial, voltadas ao que ocorre no interior do próprio veículo.

No que diz respeito à co-referência, por fim, é um pouco do que citei em post anterior: em uma perspectiva de jornalismo midiatizado, os dispositivos midiáticos passam a se referenciar cada vez mais em suas operações. Isso ocorre basicamente porque eles estão ligados uns aos outros por meio da internet. A esse fenômeno dou o nome de jornalismo midiatizado.

Apropriação ou co-referencialidade jornalística?

Recebo em minha caixa de correspondência uma newsletter do Comunique-se com uma informação interessante: "Veja copia partes de matéria do Wall Street Journal sem citar fonte". Segundo a matéria, a "reportagem de capa da edição de 22/04 da revista Veja traz uma matéria coordenada muito parecida com um artigo, publicado quase um mês antes, pelo jornal americano The Wall Street Journal (WSJ). Tanto a estrutura como trechos do texto são idênticos. Questionada pelo Comunique-se, a repórter Gabriela Carelli negou a ocorrência de plágio".

Mais que uma apropriação indevida, quer me parecer que estejamos diante de uma das características do jornalismo midiatizado, neste caso a co-referencialidade. Trata-se, a co-referencialidade, do movimento por meio do qual os dispositivos jornalísticos (jornais, revistas, rádios etc.) referenciam-se mutuamente em suas operações, ainda que, neste caso, sem a citação da fonte.

A co-referencialidade ocorre no interior do sistema midiático-comunicacional porque os dispositivos jornalísticos que compõem este estão amalgamados em rede, por meio dos nós e conexões da web, o que empresta contorno ao sistema em que se inserem e intensifica o diálogo entre eles. A perspectiva é auto-referencial, porque diz respeito às operações que ocorrem no interior do próprio sistema onde estes dispositivos se encontram.

Equivale a dizer que a midiatização, ou a instauração de uma nova ambiência a partir de uma profunda imersão tecnológica da sociedade, afeta, também, os dispositivos responsáveis por sua existência e suas operações, neste caso os de natureza jornalística.

25 de abr. de 2009

Lobão e a midiatização

Deixando de lado a verborragia desvairada do Lobão, que outro dia esteve palestrando na Unisc, onde também leciono, um trecho de sua fala chamou atenção em particular, por relevante. Lá pelas tantas, o sujeito disse que, apesar de ter sido o primeiro músico brasileiro a disponibilizar uma música sua gratuitamente pela web (no final da década de 90; registrou, segundo ele, 350 mil dowloads)- e de entender, portanto, a web como um importante canal de comunicação - deixou claro, lá pelas tantas, que isso não basta. É preciso estar na tevê (usou o exemplo do Faustão, creio), no rádio, nas revistas (citou a Rolling Stone) para "acontecer". Traduzindo, e puxando o assado para meu braseiro: mais que circular, é preciso estar referendado pelos dispositivos midiáticos. Isso para que haja, aí sim, mais possibilidade de a informação ser transmitida de um lugar a outro (a interpretação é minha). Ou seja, é preciso estar no sistema midiático-comunicacional para, a partir dele, existir na sociedade, haja vista que não podemos pensar em um sem outro. A internet é parte fundamental deste processo, à medida que permite aos fluxos de informação terem lugar, emprestando aos dispositivos o papel de nós e conexões do sistema. É mais ou menos nesta direção que caminha minha tese. A foto é de Márcia Melz, amiga e aluna, por ocasião da coletiva que antecedeu a palestra, na quinta passada.