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2 de abr. de 2010

Jornalismo midiatizado no Ciseco

O site do Centro Internacional de Semiótica e Comunicação (Ciseco) acaba de publicar o artigo Auto-referência e co-referência nas páginas do jornal Folha de S.Paulo, de minha lavra, defendido originalmente no 7º SBPJor, em novembro do ano passado.


O texto observa algumas das complexificações que os dispositivos jornalísticos sofrem quando, ao se estabelecerem como vetores de midiatização, são afetados pela processualidade desta, midiatizando-se.

A análise se realiza por meio da identificação das marcas de auto-referência e co-referência, características do jornalismo midiatizado, encontradas em 372 páginas do jornal Folha de S.Paulo entre os dias 10 e 16 de maio de 2009.

Conclui que, quando jornalismo se midiatiza, suas operações voltam-se, em grande escala, a) para o interior do próprio sistema em que se insere e b) para os demais dispositivos que compõem o sistema midiático-comunicacional.

Instauram-se, assim, novas lógicas operacionais, o que requer gramáticas de reconhecimento diferenciadas.

7 de mar. de 2010

Sobre algumas das mudanças em curso

Que o jornalismo está mudando, particularmente a partir do momento em que os primeiros jornais migraram para a web, em 1995, aqui no Brasil, não chega a ser uma novidade.

As mudanças se manifestam, grosso modo, de duas formas:

a) por meio do surgimento de novos dispositivos, caso dos sites, blogs e microblogs;

b) mas também pela reconfiguração dos tradicionais jornais e revistas impressos, rádios e televisões.

Some-se a esses o cinema e os livros no que eles têm de jornalístico e se verá, então, que o palco das mudanças é largo.

A internet exerce um papel central nessa mudança, à medida que seus nós e conexões, ao permitir, entre outros, mais vazão aos fluxos informativos entre os dispositivos (sempre existiram, mas agora estão mais rápidos, mais fluentes), dá forma ao sistema que chamo de midiático-comunicacional, formado pelos novos e "velhos" dispositivos.

Se, de um lado, as tais reconfigurações implicam, inclusive, perdas de leitores/audiência (há mais fatias no bolo, com o perdão da má figura), também provocam reações as mais diversas, todas elas interessantes.

Duas delas, envolvendo dois dos maiores jornais do país - a Folha (de quem já falamos aqui) e o Estado e de S. Paulo - estão em processo.

Tanto o da Folha, anunciado a 28 de fevereiro e previsto para maio, quanto o do Estado, que veio a público hoje e deve estrear domingo, 14, prometem páginas mais interessantes (novas fontes, valorização de imagens, mais análise etc.) e, no caso de O Estado, mudanças também no portal, em uma perspectiva convergente.

Observe-se que, em comum, as mudança acabam por aproximar ainda mais, em termos processuais, o que é da ordem dos átomos e dos dígitos.

Para quê?

Claro que para tentar evitar as sucessivas quedas em termos de circulação (hoje, na casa dos 300 mil para os dois jornais), mas também para equalizar estes dispositivos na lógica de funcionamento do sistema midiático-comunicacional.

Traduzindo para o português: no cenário descrito, sobreviverá, uma vez mais, os dispositos que melhor se adaptarem à lógica operacional do sistema em que se inserem.

E isso, sabemos; este adaptar-se, nem sempre é fácil.

Sobretudo, exige capacidade de transforção.

4 de jan. de 2010

Gafe de Bóris é midiatizada

Uma das características daquele que chamo jornalismo midiatizado é o fato de a mídia, quando imersa em uma estrutura de rede, usar cada vez mais a própria mídia como fonte de suas matérias.

Este movimento, de natureza auto-referencial, não chega a ser bem uma novidade, mas ganha contornos diferenciados no atual momento evolutivo do jornalismo, basicamente porque reconfigura suas mais diversas instâncias.

É o que se pode observar com o vídeo abaixo, veiculado pelo UOL. Sobre uma gafe que Boris Casoy, âncora da Band, cometeu.

Contextualizando: a emissora exibiu uma matéria, Bóris disse uma bobagem qualquer por trás das câmeras e o áudio acabou vazando. O UOL valeu-se deste vazamento e transformou o comentário em matéria. Ou seja, acontecimento de natureza jornalística. Mas também em munição na briga por audiência entre as emissoras (o UOL é do grupo Folha, concorrente da Band).

Deixando de lado a, digamos assim, grosseria de Bóris, também chama atenção o quão tosco é o vídeo.

Vejam com seus próprios olhos. Ouçam com seus próprios ouvidos.

23 de jul. de 2009

Gripe suína ou gripe midiática?

Tenho dito, neste espaço e também no twitter, por meio do @dsoster, que este gripe não é de verdade. Melhor dizendo: existe porque gera sentidos, portanto realidades, mas não é tão assustadora quanto parece ser ao ponto de não podermos sair de casa por causa dela.

Por que estamos com esta sensação, então?

Basicamente porque presenciamos, por meio dela, um fenômeno típico do século 21, ou seja, a midiatização da sociedade. Trata-se, a midiatização da sociedade, de um momento em que a tecnologia passa a constituir o ambiente em que nos inserimos não mais na condição de apêndice, mas sim como parte integrante dele. Ao fazê-lo, interfere no nosso modo de ser em sociedade, regulando nossas ações e sendo regulado por elas.

Se a sociedade se midiatiza, é natural pensarmos que também os dispositivos comunicacionais (jornais, revistas, televisões, sites etc.), que usualmente são vetores da midiatização, acabem por ser afetados pela processualidade da midiatização, midiatizando-se; complexificando-se. Este movimento se torna mais visível a partir da internet, porque é ela que liga fisicamente um dispositivo a outro, criando, assim, uma rede, que dá forma ao sistema midiático-comunicacional.

Bueno, se admitirmos que as operações do sistema voltam-se, principalmente, para o interior do próprio sistema, em uma perspectiva auto-referencial, - e voltando à tal gripe -, veremos que algo semelhante está ocorrendo neste momento.

Recapitulando: lá pelas tantas, um acontecimento diferenciado irrita (chama atenção e é absorvido) o sistema midiático-comunicacional, neste caso uma gripe que contém elementos dos porcos, das aves e dos homens. Este novo vírus alastra-se rapidamente e acaba por se tornar alvo de manchetes de jornais dos mais diferentes suportes. Ao fazê-lo; ao freqüentar os dispositivos do sistema midiático-comunicacional, acaba por interferir na sociedade; fechando locais públicos, fazendo com que as pessoas usem máscaras, criando vacinas, estados de alerta geral etc.

Escrevo isso ainda pensando na matéria que Zero Hora publicou dias atrás, cujo conteúdo tive acesso por meio de @trasel, no Twitter. O texto dava conta da chegada ao estado de remessa do remédio contra a Gripe A, como está sendo chamada, e era construído a partir de informações do programa Gaúcha Atualidade, do grupo RBS, obtidas a partir de entrevista com o ministro da Saúde, José Gomes Temporão. Segundo este, no ano passado, em julho, havia morrido 4,5 mil pessoas de complicações da gripe comum. "E nós estamos, até o momento, com 22 óbitos, infelizmente e lamentavelmente, da nova gripe", dizia o texto.

Ou seja, comparando-se com a gripe comum, esta que padecemos todos os anos, o novo vírus não é nada. No entanto, não é a gripe comum que vai para as manchetes, mas sim a nova. Por quê? Basicamente porque, neste momento, é o que interessa ao sistema midiático-comunciacional em suas operações. O ciclo será interrompido somente quando um novo acontecimento tiver lugar, dando lugar a uma operação semelhante à que estamos presenciando neste momento.

10 de mai. de 2009

Midiatização reconfigura fluxo informativo da Globo

O Fantástico deste domingo acaba de veicular uma notícia que, a meus olhos, reflete bem a perspectiva que defendi em minha tese de doutorado. Ou seja, que os dispositivos jornalísticos-comunicacionais, ao se estabelecerem como vetores de midiatização, são afetados pela processualidade desta. Em palavras simples, midiatização representa uma nova forma de inteligibilidade social, onde a sociedade percebe e é percebida pelo fenômento da mídia. Pois bem, na referida matéria, uma repórter (raramente gravo nomes próprios, desculpem-me) transmite um boletim defronte ao Ministério da Saúde, em Brasília. Algumas pessoas, por meio de recados gravados com webcans caseiras, entram em contato com a Globo para dizer que viram ratos atrás da referida repórter enquanto ela transmitia sua notícia. Isso fez com que o Fantástico produzisse uma matéria sobre este evento, ou seja, sobre o fato de as pessoas terem visto ratos e terem mandado, por meio da web, as imagens à Globo. Matéria esta que, por sua vez, sofreu uma nova mudança de ângulo e acabou se transformando em um relato sobre ratos nas cidades grandes, entre estas São Paulo, onde haveria mais ratos que pessoas, segundo um especialista. É meio nojento, eu sei, mas interessante o fenômeno. Observe-se, e este é um dos pontos analisados em minha tese, que, com isso, o aparato midiático também acaba se reconfigurando por meio de fluxos informativos, complexificando, assim, entre outros, os pólos de emissão e recepção que conhecemos desde há muito, mas também as formas da própria notícia. A este fenômeno dou o nome de jornalismo midiatizado, sobre o que voltaremos a falar mais adiante.