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23 de jul. de 2009

Gripe suína ou gripe midiática?

Tenho dito, neste espaço e também no twitter, por meio do @dsoster, que este gripe não é de verdade. Melhor dizendo: existe porque gera sentidos, portanto realidades, mas não é tão assustadora quanto parece ser ao ponto de não podermos sair de casa por causa dela.

Por que estamos com esta sensação, então?

Basicamente porque presenciamos, por meio dela, um fenômeno típico do século 21, ou seja, a midiatização da sociedade. Trata-se, a midiatização da sociedade, de um momento em que a tecnologia passa a constituir o ambiente em que nos inserimos não mais na condição de apêndice, mas sim como parte integrante dele. Ao fazê-lo, interfere no nosso modo de ser em sociedade, regulando nossas ações e sendo regulado por elas.

Se a sociedade se midiatiza, é natural pensarmos que também os dispositivos comunicacionais (jornais, revistas, televisões, sites etc.), que usualmente são vetores da midiatização, acabem por ser afetados pela processualidade da midiatização, midiatizando-se; complexificando-se. Este movimento se torna mais visível a partir da internet, porque é ela que liga fisicamente um dispositivo a outro, criando, assim, uma rede, que dá forma ao sistema midiático-comunicacional.

Bueno, se admitirmos que as operações do sistema voltam-se, principalmente, para o interior do próprio sistema, em uma perspectiva auto-referencial, - e voltando à tal gripe -, veremos que algo semelhante está ocorrendo neste momento.

Recapitulando: lá pelas tantas, um acontecimento diferenciado irrita (chama atenção e é absorvido) o sistema midiático-comunicacional, neste caso uma gripe que contém elementos dos porcos, das aves e dos homens. Este novo vírus alastra-se rapidamente e acaba por se tornar alvo de manchetes de jornais dos mais diferentes suportes. Ao fazê-lo; ao freqüentar os dispositivos do sistema midiático-comunicacional, acaba por interferir na sociedade; fechando locais públicos, fazendo com que as pessoas usem máscaras, criando vacinas, estados de alerta geral etc.

Escrevo isso ainda pensando na matéria que Zero Hora publicou dias atrás, cujo conteúdo tive acesso por meio de @trasel, no Twitter. O texto dava conta da chegada ao estado de remessa do remédio contra a Gripe A, como está sendo chamada, e era construído a partir de informações do programa Gaúcha Atualidade, do grupo RBS, obtidas a partir de entrevista com o ministro da Saúde, José Gomes Temporão. Segundo este, no ano passado, em julho, havia morrido 4,5 mil pessoas de complicações da gripe comum. "E nós estamos, até o momento, com 22 óbitos, infelizmente e lamentavelmente, da nova gripe", dizia o texto.

Ou seja, comparando-se com a gripe comum, esta que padecemos todos os anos, o novo vírus não é nada. No entanto, não é a gripe comum que vai para as manchetes, mas sim a nova. Por quê? Basicamente porque, neste momento, é o que interessa ao sistema midiático-comunciacional em suas operações. O ciclo será interrompido somente quando um novo acontecimento tiver lugar, dando lugar a uma operação semelhante à que estamos presenciando neste momento.