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1 de mai. de 2011

Sobre erros e ouvidores

Suzana Singer, ombudsman da FSP, escreve nesse domingo sobre a prática de revelar a autoria dos erros, coisa que a Folha o faz, mais recentemente, por meio da explicitação do nome do repórter envolvido na matéria.

Aos olhos do senso-comum (nossas tidos e tias, amigos etc.) está correto: errou, tem de dizer quem, como e por quê, coisa, aliás, que ainda não acontece, o tal do dizer por quê.

Ocorre que, em jornais, e em especial das grandes estruturas, o nome que vai assinado junto à matéria representa apenas parte da autoria da mesma: ao longo do processo de elaboração de uma edição, a matéria sofre interferências as mais diversas, nem todas brandas, nem todas adequadas.

Por isso é complicado atribuir méritos, e defeitos, a uma só pessoa, como normalmente ocorre, sendo mais acertada a ubíqua "erramos".

Felizmente essa é a posição defendida por Singer na coluna "Eu erro, tu erras, ele erra".

Ponto para um espaço que, aos meus olhos, tem perdido muito de seu vigor desde a saída de Mário Magalhães, pelos motivos que ele explicitou em sua última coluna.

(Em tempo: não deixa de ser curioso que, mesmo sabendo disso, os jornalistas só se importam com as interferências negativas em seus textos; as positivas parecem não vir ao caso, ou são compreendidas como naturais. Ao final, se tudo der certo, os méritos são de quem assina, o mesmo não ocorrendo em relação aos erros, mas esse é assunto para outro post.)

3 de abr. de 2011

#prontofalei

A coluna do Ombudsman da FSP desse domingo, #prontofalei, discute um assunto de primeira importância nesses dias de reconfiguração de fazeres e formas: os cuidados, direitos e deveres que devem ter os jornalistas quando suas vozes, pelo viés de dispositivos 2.0, principalmente, ganham alcance para além das redações.

O tom é de natureza moral; trata-se, sem dúvida, de uma questão ética à medida que discute o corportamento dos jornalistas, mas há outros pontos de igual relevância a serem considerados na tessitura do texto de Suzana Singer.

O mais evidente, a meus olhos, é a reconfiguração espaço-temporal que se estabelece na vida dos jornalistas em determinado cenário, personificada, em termos de forma, de um lado, pelos nós e conexões da web, enquanto que, por outro, pela diferença que o fazer jornalístico per si representa quando em contato com os fazeres dos demais campos sociais.

Por esse viés, por exemplo, a tendência é que sejamos jornalistas não apenas nos lugares em que estamos acostumados a sê-lo, e esse alargamento complexifica, claro, para além da ética, as questões organizacionais também, mas muda, inclusive, o "ser-se", a "forma como se está", o "lugar de onde se diz", o que exige, uma vez mais, novas e sucessivas gramáticas interpretativas.

Negar essa perspectiva é ficamos presos às velhas formas/fórmulas e a discussão não avançar.

Para quem não tem acesso ao UOL, reproduzo abaixo a coluna.


"A BLOGOSFERA dá a qualquer um a chance de divulgar o que passa pela sua cabeça a todo momento. No jornalismo, sem o filtro da edição, essa modernidade tem sido uma fonte de problemas. Na quarta-feira passada, após o anúncio da morte de José Alencar, havia no Twitter:

Repórter da Folha: "Nunca um obituário esteve tão pronto. É só apertar o botão."

Repórter do Agora: "Mas na Folha.com nada ainda... esqueceram de apertar o botão. rs" (risos)

Repórter da Folha: "Ah sim, a melhor orientação ever. O último a dar qualquer morte. É o preço por um erro gravíssimo."

Um diálogo ruim, de todos os pontos de vista. É insensível jogar na cara do leitor que há obituários prontos à espera do momento de publicação. Não faz sentido um jornalista criticar, publicamente, um site da mesma empresa. E não deixa de ser desagradável lembrar um problema recente -a divulgação errada, pela Folha.com, da morte do senador Romeu Tuma.

Em janeiro, um fotógrafo colaborador do "Agora", que cobria as eleições para presidente do Palmeiras, escreveu: "Enquanto os porcos não se decidem poderiam mandar mais lanchinhos e refrigerante para a imprensa que assiste ao jogo do Timão na sala de imprensa". A reação foi rápida e violenta: ele apanhou de seguranças do time.

É difícil convencer jornalistas de que suas contas no Twitter, Facebook ou Orkut não podem ser encaradas apenas como pessoais. O repórter é seguido, curtido, recomendado, também como um representante do lugar em que trabalha.

Em um comunicado de 2009, que merece ser atualizado, a chefia da Redação lembrava que todos devem seguir os princípios do projeto editorial quando estiverem on-line.

Seria bom esmiuçar isso. Jornalista não pode declarar voto político, xingar artistas, amaldiçoar o time de futebol rival, bater boca com leitores, expressar preconceito nem tentar obter vantagem pessoal (reclamar, por exemplo, do mau atendimento num restaurante para que saibam que ele é da imprensa).

É muito limitante, mas o repórter precisa considerar que amanhã poderá ser cobrado por uma opinião "inocente". Em um plantão, alguém de Esporte pode ser designado para entrevistar determinado político. E se ele tiver postado, dias antes, que o sujeito é um "corrupto contumaz"?

Quem mais luta pela liberdade de expressão precisa restringir a própria para não perder a razão."

2 de ago. de 2009

Sistema midiático regula política nos EUA

Coluna do ombudsman da Folha de São Paulo deste domingo ilustra aquele que, aos meus olhos, ilustra o atual momento evolutivo do jornalismo. Ou seja, um tempo em que o sistema midiático-comunicacional, amalgamado em rede pela web, regula com cada vez mais freqüência os demais sistemas, sociais ou não, para além das perspectivas de emissão/recepção a que estávamos acostumandos, viabilizando, assim, suas próprias operações.

No caso citado, os jornais impressos norte-americanos interferem com cada vez mais freqüência, em suas operações, no sistema político. Com isso, reconfiguram sua própria forma e estabelecem novos critérios de relacionamento com seus leitores, viabilizando-se. Isso é possível, entre outros, porque o dispositivo jornal-impresso, nesta circunstância, deixar de lado a centralidade que ocupou historicamente e passa a servir de nó, ou conexão, de um sistema mais amplo, que chamo de midiático-comunicacional, cujas operações são de natureza auto-referencial, porque sistêmicas.

Este assunto será tratado no livro que eu e Fernando Firmino estamos organizando, o Metamorfoses jornalísticas 2: a reconfiguração da forma (Edunisc, 2009), neste momento no prelo.

Para quem não tem acesso à Folha, reproduzo abaixo a coluna de Carlos Eduardo Lins da Silva, que é o ombudsman da Folha desde 24 de abril de 2008.

"OS JORNAIS americanos, por estarem enfrentando crise sem precedentes, concentram esforços para criar instrumentos para reforçar seus vínculos com os leitores e sua relevância junto à sociedade.

O "New York Times" recebeu na semana passada o prêmio Knight-Batten, que reconhece inovações no jornalismo, por suas novas ferramentas capazes de aumentar o controle social sobre as autoridades.

Uma delas se chama "Represent". Com ela, o leitor de Nova York é capaz de acompanhar interativamente as atividades de seus representantes nos diversos níveis de governo.

O jornal coloca à disposição numa espécie de "facebook" informações factuais e reportagens sobre cada político, seus votos, discursos, e permite ao leitor escrever comentários e mensagens.

Durante a eleição de 2008, o "Times" colocou no seu site a íntegra em vídeo dos principais discursos e dos debates entre Barack Obama e John McCain, com a sua transcrição ao lado, o que permitia fazer buscas no texto ou remeter-se a partes específicas do maior interesse de cada pessoa, o que não é possível para quem está assistindo apenas ao vídeo.

Coisa parecida é o "Document Reader", por meio do qual o jornal posta documentos públicos de qualquer tamanho e permite ao leitor procurar trechos que mais lhe interessem, assinalar passagens, fazer comentários à margem.

O "St. Petersburg Times" tem o "Polifact", que apura a veracidade de promessas ou declarações de candidatos a cargos públicos ou autoridades no exercício do mandado e coloca o resultado de sua apuração à disposição da audiência.

Parceiro constante de jornais que se aventuram nesses experimentos é o site Propublica (http://www.propublica.org), sem fins lucrativos, que se proclama independente e dedicado a produzir "matérias importantes com força moral" resultantes de trabalho investigativo autônomo. Ele foi estabelecido em 2007, com dinheiro da Fundação Sandler, dos banqueiros Herbert e Marion Sandler, e é dirigida por jornalistas que deixaram o "Wall Street Journal".

Estes são alguns exemplos de como a internet pode contribuir muito positivamente para melhorar a qualidade do jornalismo e das relações entre a sociedade e seus governantes.

Há quem enxergue na internet um inimigo do jornalismo. É um erro conceitual e estratégico. A internet é apenas um meio, como o rádio, a TV, o papel, em que se pode fazer jornalismo.

O jornalismo americano está em crise de modelagem de negócio, não de público. Nunca os grandes jornais diários tiveram tantos leitores quanto agora, graças à internet. Mas eles ainda não conseguiram achar a fórmula que transforme essa leitura em receita.

Uma das empresas jornalísticas mais lucrativas no momento nos EUA é o "Congressional Quarterly" (CQ), que se dedica apenas à cobertura das atividades do Congresso dos EUA. Ele acaba de ser vendido pelo "St. Petersburg Times" para um concorrente como forma de salvar o jornal diário de seus problemas.

O sucesso do CQ e das iniciativas acima mencionadas mostram que uma ligação orgânica entre jornalismo e acompanhamento de políticas públicas pode ser um caminho promissor".